Citação

A meditação acontece

A meditação é um acontecimento, esse é o primeiro ponto. O segundo é, a meditação não exige esforço. A chave para a meditação é a não exigência de esforço. Não é fazer alguma coisa, mas não fazer nada, que é meditação. E criar uma condição onde você possa realmente não fazer nada é tudo o que é importante para examinar.

~Sri Sri Ravi Shankar

Veja mais sobre os muitos métodos e maneira como meditação acontece, segundo o líder espiritual indiano, no site da Arte de Viver Brasil

Hoje: Meditação da Lua Cheia

Promoção: Arte de Viver

Promoção: Arte de Viver

Acontece hoje, em vários pontos do Brasil, a Meditação da Lua Cheia, promovida pela Arte de Viver.

As meditações coletivas têm um efeito potencializado. Iniciativas como esta contribuem para a maior conscientização com relação à meditação e possibilitam que este conhecimento seja acessado por mais pessoas. Além do que, a meditação tem um efeito muito positivo no ambiente.

Veja os locais de realização em cada cidade.

Dia 14: Você não está sozinho

Tradução do boletim de hoje da campanha 100 Dias de Amor-Bondade, da Wildmind. Amanhã, e aliás, até segunda, não sei se terei tempo de traduzir :(

Uma das razões mais comuns pelas quais temos dificuldade na auto-metta é que imaginamos que nossas dificuldades e contratempos nos diferenciam de outras pessoas. Sendo assim, quando enfrentamos dificuldades com algo que é importante para nós, nos sentimos isolados e sozinhos. A gente supõe que tal coisa, seja ela o que for, é fácil para os outros e difícil para a gente. Que a gente foi amaldiçoado com alguma deficiência. Que, de alguma forma, somos piores que os outros. E ao nos julgar dessa forma, a gente então se inunda com auto-criticismo e se sente desanimado por causa daquilo que percebemos como uma falha nossa.

O budismo tem um nome para isso: prepotência. Talvez você se surpreenda com isso, uma vez que a gente normalmente considera prepotência quando nós achamos superiores aos outros. Mas a partir de um ponto de vista budista, toda a comparação com o valor de outra pessoa é uma forma de prepotência, esteja a gente se sentindo superior, inferior ou mesmo igual ao outro.

Eu gostaria de fazer três sugestões sobre como tratar do complexo de inferioridade – esta tendência a criar um sentido da isolamento.

1 – Trate seus sentimentos dolorosos com compaixão
É OK sentir desapontamento ou frustração quando as coisas não saem da maneira que a gente quer. Em termos budistas, estes são sentimentos e não emoções. E, ao contrário de emoções, os sentimentos estão fora de nosso controle direto. Os sentimentos são neutros eticamente. O problema é que a gente frequentemente pensa que há algo errado conosco quando experimentamos este tipo de desconforto, como se estivéssemos fazendo algo errado ao nos sentir frustrados ou decepcionados, ou tomamos isso como um sinal de que falhamos. Mas não estamos errados, nunca estivemos. A primeira coisa é aceitar estes sentimentos dolorosos, para depois reconhecer que são uma forma de sofrimento, e responder, em terceiro lugar, ao nosso sofrimento de uma maneira compassiva. Trate a sua dor como se fosse uma outra pessoa sofrendo, e emita pensamentos de amor e bondade: “Que você esteja bem; que você seja feliz; que você encontre a paz.”

2 – Preste atenção a seus pensamentos com ceticismo
Há um provérbio que nos diz para não acreditar em tudo o que a gente pensa. O que é especialmente verdadeiro quando nós estamos passando por dificuldades. Nossos pensamentos podem nos contar histórias como: “eu falhei. Sou imprestável. Não consigo fazer isso. Não dá para aguentar.” E assim por diante. É muito importante afastar-se um pouco destes pensamentos e reconhecer que são histórias, e não a realidade. Você pode observar os pensamentos, sem acreditar nas histórias que estão contando. Outro dia, eu observei pensamentos conectados com a solidão que começava a borbulhar em minha mente. Em vez de transformá-los em um drama, deixei apenas que os pensamentos passassem. E então prestei atenção com compaixão à solidão que eu experimentava.

3 – Considere: Você não está sozinho
Todos nós cometemos erros; todos temos pontos fortes e fracos; a confusão é uma parte integral da aprendizagem: lembrar disso ajuda a gente a se sentir menos sozinhos, e a reconhecer que a frustração faz parte da vida de todos. O pensamento de que somos piores do que os outros é apenas uma dentre muitas histórias que podemos tratar com ceticismo. É uma das mais perniciosas, porém, e por isso eu a escolhi para dar esse tratamento especial. E a prática de considerar que não estamos sozinhos é também uma ilustração que não basta deixar passar nossos pensamentos inúteis: podemos também conscientemente cultivar pensamentos, como “todos cometem erros”, que permitem que estejamos mais em paz.

Na semana passada cometi uma série de erros bem públicos. Primeiro, enviei um email para milhares de pessoas para a lista errada. Depois eu enviei o email outra vez, para a lista certa, mas com um link quebrado. Finalmente, acertei. Houve uma época em que eu agonizaria depois de cometer um erro assim, publicamente, mas agora apenas vejo isso como algo que acontece. Nós todos cometemos erros.

Estas três práticas podem ajudar a nos liberar da carga adicional de sofrimento que a gente impõem a nós mesmos quando tomamos uma frustração ordinária e a transformamos em algo muito mais doloroso. Elas permitem que a gente deixe sentimentos difíceis surgir e passar, nos deixando mais leves e mais livres.

Com metta (bondade),

Bodhipaksa

Acompanhe todas as traduções dessa série aqui.

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A meditação vem quando você está feliz

Por que na cabeça de todo mundo surge essa idéia de que a meditação traz felicidade? De fato, sempre que eles encontram uma pessoa feliz, eles encontram uma mente meditativa, essas duas coisas estão associadas. Sempre que eles encontram uma bela atmosfera meditativa circundando um homem, eles sempre descobrem que ele estava tremendamente feliz; vibrante com a alegria, radiante. Essas coisas se tornaram associadas. E eles pensam que a felicidade vem quando você está meditativo. E é exatamente o oposto: a meditação é que vem quando você está feliz.
Mas ser feliz é difícil e aprender a meditar é fácil. Ser feliz significa uma drástica mudança em sua maneira de viver, uma mudança abrupta, porque não há nenhum tempo a perder. Uma mudança súbita, um repentino estrondo de trovão (a sudden clash of thunder), uma descontinuidade.

Isso é o que eu entendo por sânias: uma descontinuidade com o passado. Um repentino estrondo de trovão, e você morre para o velho e então, revigorado, você recomeça do bê-a-bá. Você nasce de novo. Você começa de novo a sua vida, como você começaria se os padrões não tivessem sido impostos a você pelos seus pais, pela sociedade, pelo Estado; como se ninguém tivesse desviado você. Mas você foi desviado.

Você tem que deixar de lado todos os padrões que foram impostos a você, e você tem que encontrar a sua própria chama interior.

~ Osho, em A Sudden Clash of Thunder (Tradução: Sw. Bodhi Champak). Fonte.

Dia 13: Metta do Anjo da Guarda

Tradução do boletim de hoje da campanha 100 Dias de Amor-Bondade, da Wildmind:

Sabe quando estamos sentados no metrô e tem alguém sentado bem na nossa frente? É meio estranho tentar não fazer contato visual, e tem aqueles momentos desconcertantes em que somos flagrados olhando para a pessoa…

Às vezes, pode acontecer algo estranho assim durante a prática da meditação de metta bhavana. Não é tão ruim assim com um amigo, pois estamos acostumados a olhar nos olhos dele, mas mesmo assim pode ser um pouco estranho mentalmente “sentar-se de frente” a ele por dez minutos mais ou menos. É meio formal e artificial, não é?

Há algum tempo, eu tenho praticado amor-bondade de uma maneira diferente. Primeiro, eu não imagino que a outra pessoa esteja estática em minha frente, mas lidando com seus afazeres cotidianos. Posso visualizar meu amigo trabalhando em seu computador, ou tocando piano, ou fazendo algo no jardim. Para a “pessoa neutra”, vejo alguém trabalhando no balcão dos correios, ou em qualquer coisa que eu imagine que esteja fazendo. A propósito, não é que eu tenha um filme rodando. É mais como uma série de imagens fragmentadas. Parecem o suficiente.

Este é portanto o primeiro passo.

No segundo passo, eu me imagino estando com a outra pessoa, mas invisível para ela. Eu sou o anjo da guarda da pessoa, desejando que ela esteja bem.

Eu imagino, às vezes, que estou colocando minha mão nela, com um toque carinhoso, e emitindo meu amor ao seu corpo enquanto digo “que você esteja bem; que você seja feliz; que você esteja em paz”. Às vezes, imagino uma luz fluindo do meu corpo ao dela, enquanto repito as frases. Às vezes, apenas vejo a pessoa “em sua lida” e repito as frases.

Geralmente, estou sorrindo.

Acho que tirei a ideia de um filme de Wim Wenders, Asas do Desejo (Himmel Über Berlim), onde anjos patrulham invisivelmente a cidade de Berlim, tocando as pessoas e sentindo a dor delas, embora no filme seja um pouco deprimente, sem dar a impressão de que chegam a aliviar algum sofrimento.

Mas gosto da ideia. Estamos todos acostumados com a ideia de anjos da guarda, mas pensamos geralmente em termos de ter um. Acho que é ainda mais carinhoso pensar em nos tonarmos um.

Com metta (bondade),

Bodhipaksa

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Conselhos de um meditator experiente

Somos inundados por terapias, livros de auto-ajuda e técnicas – o que o músico e ativista Bob Geldof chamou de “a próspera economia dos psicoterapeutas, religiões da moda e boutiques espirituais – que tratam de nossas vidas como projetos a serem refinados e fixos. Não seria a meditação (se é que é alguma coisa) um alívio disso tudo? Não seria o oposto de reparar, ajustar, esforçar-se e perpetuamente querer que as coisas fossem diferentes?

– Barry Evans, em “The Myth of the Experienced Meditator” [O Mito do Meditador Experiente, em tradução livre]. Fonte: newsletter de hoje da Tricycle.

Dia 12: Seres sentimentais

Peço desculpas pela demora na tradução do boletim de hoje da campanha 100 Dias de Amor-Bondade, da Wildmind. A seguir:

Por muito tempo, quando estava crescendo, eu parecia estar completamente inconsciente de duas coisas. Primeiramente, que outros seres têm sentimentos. E segundo, que os sentimentos dos outros são tão importantes para eles quanto os meus o são para mim.

Pode parecer tão óbvio que você se pergunta como foi possível negligenciar estes pontos, ou até como podem ser tema de uma revelação. Mas, ao que parece, todos nós temos problemas em reconhecer estes fatos simples. Nenhum de nós gosta de se sentir machucado, entretanto frequentemente fazemos coisas que ferem os sentimentos das pessoas, seja por meio de nossas expressões faciais, nossas palavras ou gestos.

Se a gente conseguisse manter em vista que os outros querem ser felizes e não querem sofrer, a maioria de nós comportar-se-ia completamente diferentemente. Quando a gente valoriza e honra os sentimentos dos outros tanto quanto os nossos, ferir outra pessoa é ferir a nós mesmos.

Há um outro aspecto importante nisso tudo, que é o fato de que também temos que cuidar de nossos próprios sentimentos. Se você foi criado em um ambiente emocionalmente hostil – talvez com muito criticismo ou sarcasmo – pode ser que tenha se acostumado a se sentir machucado e infeliz, ao ponto de ter esquecido de que há uma alternativa. Você se acostumou tanto a descontar a sua própria dor que você nem pensa em levar em consideração os sentimentos de outras pessoas. Pode ser que seja necessário trabalhar para reconhecer os seus próprios sentimentos e aprender novamente que você prefere a felicidade em vez da infelicidade, antes que você possa desenvolver empatia para com os outros.

Eu sugiro, porém, que você tenha em mente este pensamento no seu cotidiano. Quando estiver conversando com uma pessoa, ou se estiver pensando em alguém enquanto dirige, ou anda, ou faz compras, lembre-se: trata-se de um ser sentimental. Os sentimentos dele são tão importantes para ele quanto os meus são para mim. Quer ser feliz e não quer sofrer.

Experimente e veja como o seu comportamento muda, e como muda a maneira como você se sente.

Com metta (bondade),

Bodhipaksa

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Médicos alertas, pacientes felizes

Um novo estudo mostra que médicos com prática de mindfulness (atenção plena) se comunicam melhor com os pacientes e prestam cuidados de melhor qualidade. 

Um volume significativo de pesquisas aponta para os benefícios da prática de mindfulness para profissionais de medicina. Praticar mindfulness pode reduzir o esgotamento e melhorar o bem estar de médicos.

Uma nova pesquisa mostra que a prática de atenção plena da parte do médico é uma boa notícia também para os pacientes: o estudo, publicado no Annals of Family Medicine (Anais de Medicina da Família), mostra que médicos com prática de atenção plena se comunicam melhor com os pacientes e prestam cuidados de melhor qualidade.

No estudo da universidade de John Hopkins, Mary Catherine Beach e alguns colegas administraram questionários para medir a habilidade de atenção plena de 45 médicos que cuidavam de pacientes com HIV nos Estados Unidos. Em seguida, os pesquisadores gravaram a interação destes médicos com seus pacientes. Eles também entrevistaram os pacientes para ouvir a perspectiva deles quanto a qualidade dos cuidados médicos.

Quando os pesquisadores analisaram as gravações de áudio das interações entre médicos e pacientes, descobriram que os médicos com mais prática de mindfulness demonstraram comunicação mais centrada nos pacientes – ou seja, passaram mais tempo estabelecendo uma relação com os pacientes e falaram mais sobre a experiência deles, em vez de apenas focalizar no aspecto biomédico da doença. Eles também apresentaram um tom emocional mais positivo, passaram mais tempo visitando os pacientes e tiveram melhor avaliação da qualidade da comunicação e cuidado da parte dos pacientes.

Por que será que a atenção plena apresenta este efeito? Os pesquisadores acreditam que por mindfulness envolver atenção, curiosidade e presença, a prática promove uma consciência maior de si mesmo e dos outros. Esta consciência pode vir a ajudar os médicos a melhor prestar atenção à experiência da outra pessoa, permitindo responder aos pacientes com mais compreensão, empatia e compaixão.

Entretanto, enquanto este estudo demonstra que mindfulness e cuidados de mais de alta qualidade estão correlacionados, a pesquisa não prova que a atenção plena cause um cuidado de maior qualidade; uma pesquisa futura deve investigar se uma intervenção de mindfulness melhoraria diretamente a qualidade dos cuidados do médico, a fim de excluir outros fatores que podem vir a esclarecer a correlação.

Os pesquisadores também acham que a pesquisa deveria investigar se a percepção de melhor qualidade do cuidado e comunicação conduz os pacientes a melhores resultados na saúde. Segundo eles, “em uma era em que muitos médicos sofrem com esgotamento profissional, a atenção plena na prática pode ser a maneira de médicos não apenas cuidarem de si próprios, mas também curar seus pacientes”.

Fonte: Greater Good, tradução minha.

Dia 11: Converse gentilmente consigo mesmo

Mais uma semana na campanha 100 Dias de Amor-Bondade, da Wildmind. Eis a tradução da newsletter de hoje, dia 11:

Pensamentos fluem constantemente na mente, formando uma espécie de “diálogo interno”. A maneira como falamos conosco pode ser gentil ou hostil, e quando falamos conosco com hostilidade, causamos sofrimento a nós mesmos.

Muita gente se critica severamente – “eu sou tão idiota!” – de uma maneira muito áspera. Ou pode ter conversas zangadas circulando na própria mente. Outros podem pensar sobre coisas que estão dando errado em suas vidas e generalizá-las, pensando que suas vidas como um todo estão dando errado. Ou podem supor que outras pessoas estão tendo pensamentos hostis sobre eles. Todos estas formas de diálogo interno fazem com que a gente sofra.

Sendo assim, uma pergunta boa para se ter em mente enquanto a gente vai lidando com a vida é: “como a maneira como eu estou falando comigo está afetando a forma como me sinto?”. Portanto, hoje, veja se você consegue observar a conexão entre seus pensamentos e sentimentos. O seu diálogo interno está lhe ajudando a ser mais amoroso, mais expansivo, mais em paz, mais contente, mais presente, mais fortalecido? O seu diálogo interno está levando você a se sentir neutro? Ou seu diálogo interno está fazendo com que você se sinta isolado, estressado, abatido, irritado ou ansioso?

Naturalmente, nem todos os seus sentimentos são relacionados ao que você pensa, mas quase tudo que você pensa tem um efeito na forma como você se sente.

É importante aprender a observar essa conexão entre pensamentos e sentimentos sem julgamento. É muito fácil perceber que nossos pensamentos fazem com que a gente se sinta mal, e em seguida começar a nos culpar, ficando deprimidos ou raivosos. Em vez de reagir dessa forma, veja se você consegue aceitar que é simplesmente normal que a mente fique fora de controle e nos cause sofrimento dessa forma. É simplesmente o que a mente faz. Isso não quer dizer que você está fazendo alguma coisa errada; é parte da experiência de ser humano.

Faça o melhor que puder para deixar passar pensamentos que não ajudem e para voltar a observar as sensações físicas que aparecem no corpo. Observe o mundo sensorial a sua volta. Quanto mais a gente se ancora na experiência sensorial, menos a gente pensa, portanto temos menos pensamentos negativos.

Talvez você queira ainda introduzir alguns pensamentos úteis – honestos, amáveis, compassivos. Pensamentos deste tipo contradizem as inverdades e exageros que você tem dito para si mesmo. As frases de metta, “Que eu esteja bem; que eu seja feliz; que eu esteja em paz”, funcionam bem, embora haja outras afirmações ou declarações ao seu alcance que são mais específicas para a sua situação.

Ao deixar que pensamentos inúteis passem, ou ao substitui-los por pensamentos mais honestos e mais compassivos, a maneira como você se sente mudará. Pode ser uma mudança pequena, mas como o Buda disse, “Que não se pense levianamente acerca do bem, dizendo: “A mim ele não me tocará.” A água que cai em gotas enche um cântaro. Da mesma forma, o sábio, pouco a pouco, enche-se de bem”.*

Você pode confiar neste processo. Não, você não vai erradicar o seu sofrimento ou seus hábitos mentais inúteis. Mas você tem o poder de deixar passar os pensamentos, um por um, repetidamente, e você tem o poder cultivar pensamentos úteis. E de gota em gota em gota, nossos corações tornam-se cheios de bondade, compaixão e alegria.

Com metta (bondade),
Bodhipaksa

[Notas da tradução: *trecho 122 do Dhammapada traduzido em português por Bhikkhu Dhammiko, e foi publicada em “Dhammapada – O Caminho da Sabedoria do Buddha”]

Acompanhe todas as traduções dessa série aqui.

Mais mindfulness, menos meditação

Artigo de Tony Schwartz, postado originalmente no The New York Times DealBook em 31 de janeiro de 2014, com tradução (não autorizada) minha. Sobre o autor: Tony Schwartz é presidente-executivo do Energy Project e autor do livro Envolvimento Total: Gerenciando Energia e Não o Tempo.

Eis a promessa: Meditação – e em particular meditação mindfulness (atenção plena) – reduzirá o seu nível de cortisol, pressão arterial, ansiedade social e depressão. Vai aumentar a resposta de seu sistema imunológico, resistência e foco, e melhorará seus relacionamentos – inclusive consigo mesmo. Também reforçará o seu desempenho no trabalho e proporcionará a paz interior. Pode até mesmo curar a psoríase.

O rapper 50 Cent medita, assim como Lena Dunham e Alanis Morissette. Steven P. Jobs meditava e a prática de mindfulness está varrendo o Vale do Silício. De sábado a oito, 2 mil executivos de tecnologia e outros candidatos participarão da Wisdom 2.0, uma conferência esgotada que tornou-se repentinamente um evento imperdível para os entendidos. Até mesmo Rupert Murdoch tentou meditar, resumindo sua tentativa em um tweet a la haikai: “Todo mundo recomenda, não é fácil começar, mas dizem que melhora tudo”.

É mesmo? Pelo que vale, não concordo.

Eu aprendi a meditar há 25 anos, construí uma prática diária de atenção plena e passei centenas de horas sentado com os olhos fechados e as pernas cruzadas. Também entrevistei dezenas de praticantes de meditação, incluindo os professores mais proeminentes, para um livro que escrevi em 1995 chamado “What Really Matters: Searching for Wisdom in America” [O que realmente importa: A procura pela sabedoria na América do Norte, em tradução livre].

Mas quanto mais tempo eu passava meditando, menos valor que eu tirava da prática. O que não quer dizer que eu ache que não traga nenhum benefício.

A definição mais simples de meditação é aprender a fazer uma coisa de cada vez. Construir a capacidade de acalmar a mente tem inegável valor em tempos em que nossa atenção encontra-se sob cerco fechado, e a distração se tornou nosso estado estacionário. A meditação – em dose correta – também é importante como uma forma de relaxar o corpo, acalmar as emoções e refrescar a energia da pessoa. Há evidências cada vez maiores de que a meditação traz alguns benefícios para a saúde.

Eu não vejo muitas evidências, entretanto, de que a meditação leva as pessoas a se comportarem melhor, melhora seus relacionamentos ou as torna mais felizes.

Considere o que Jack Kornfield tem a dizer sobre a meditação. Na década de 70, depois de passar vários anos como um monge no Sudeste da Ásia, Kornfield foi um dos primeiros norte-americanos a levar a prática da atenção plena para o Ocidente. Ele continua sendo um dos professores de mindfulness mais conhecidos, além de trabalhar como psicólogo.

“Enquanto eu me beneficiei enormemente da formação nos mosteiros tailandeses e birmaneses onde pratiquei”, escreveu ele, “notei duas coisas marcantes. Primeiro, havia áreas principais de dificuldades na minha vida, como solidão, relacionamentos íntimos, trabalho, feridas da infância e padrões de medo que nem mesmo a meditação muito profunda tocou”.

“Em segundo lugar, dentre as várias dezenas de monges ocidentais (e muitos meditadores asiáticos) que conheci durante minha temporada na Ásia, com algumas exceções notáveis, a maioria não foi ajudada pela meditação em grandes áreas de suas vidas. Meditação e prática espiritual podem ser facilmente usadas para suprimir e evitar sentimentos ou para escapar de áreas difíceis de nossas vidas”.

Então, como usar a meditação para tirar melhor proveito?

Em primeiro lugar, não espere mais do que ela pode fazer.

No mundo moderno, a meditação é muito mais eficaz como uma técnica de auto-gestão, e não como um meio de transformação pessoal nem muito menos para a iluminação.

Em segundo lugar, comece com simplicidade.

Mindfulness – ou “vipassana” – é um tipo específico de prática meditativa do budismo Theravada. Trata-se de aprender a observar os pensamentos, sentimentos e sensações que podem surgir e passar, sem prender-se a eles. Ao construir a capacidade de testemunhar a própria experiência, sem apego ou reação, segundo o ensinamento, a pessoa lentamente começa a ver além da ilusão de permanência e separação.

O problema com a atenção plena como um ponto de partida é que trata-se de uma prática avançada. No ensino tradicional, os alunos aprendem primeiro a estabilizar a atenção através de “samatha”, ou meditação de concentração. A concentração envolve o foco em um único objeto de atenção, tal como a respiração ou mantra, como na meditação transcendental. Somente quando os alunos aprendem a acalmar a mente de forma confiável – um processo que muitas vezes leva anos – é que a prática mais sutil e avançada de vipassana é introduzida.

Na minha experiência, a meditação de concentração é uma forma mais simples e mais confiável do que a atenção plena para ajudar no controle de sua atenção, calma e relaxamento – especialmente para aqueles que estão nos estágios iniciais da prática.

Finalmente, não presuma que mais é melhor.

“A prática de mindfulness tem seus benefícios”, afirmou Catherine Ingram, autora do livro Passionate Presence [Presença Passional, em tradução livre], “mas no meu caso, após 17 anos de prática, cheguei a um ponto em que observar mentalmente minha respiração, pensamentos e sensações se tornou cansativo, uma sensação de sempre ter dever de casa e de constantemente picar a realidade em pedacinhos”.

Até mesmo alguns minutos sentando-se calmamente e seguindo a respiração ajuda bastante. Eu considero especialmente eficaz inspirar a uma contagem de três e expirar a uma contagem de seis – efetivamente estendendo a expiração e aprofundando a experiência de relaxamento. A contagem é também um objeto eficaz de atenção, e, em função disso, aumenta a concentração.

Eu também descobri que é realmente mais prático se concentrar e relaxar por um minuto ou dois várias vezes por dia do que meditar por um longo período e em constante batalha contra a distração ao longo do caminho.

Há uma diferença entre a meditação mindfulness e simples mindfulness. Esta última não é uma prática separada da vida cotidiana. Mindfulness significa simplesmente nos tornar mais consciente do que estamos sentindo, trazer mais intenção para nossos comportamentos e estar mais atentos ao nosso impacto sobre os outros. Tem a ver com presença – o que a Ingram chama de “se manter silencioso e simples por dentro, em vez de desempenhar qualquer tarefa mental que seja”.

O verdadeiro desafio não é o que somos capazes de fazer com nossos olhos fechados. É ser mais auto-conscientes no cadinho da nossas vidas cotidianas, e nos comportarmos melhor como resultado. Isso é mindfulness em ação.

Foto do destaque: ConnectIrmeli (CC BY-NC-ND 2.0)

amigos de verdade

Dia 10: Amor e bondade naturais

Chegamos ao décido dia da campanha 100 Dias de Amor-Bondade, da Wildmind – o que quer dizer já andamos 10% do caminho (embora a aspiração maior é prática permanente e natural desse amor incondicional por nós mesmos e pelos outros!). Veja aqui a tradução da newsletter de hoje:

As pessoas geralmente acham que praticar amor-bondade é algo difícil. Gostaria de salientar a naturalidade da metta, e como ela surge sem esforço a partir de certas reflexões. Não quero dizer que é fácil viver “mettamente” o tempo todo. Mas amor-bondade não é algo pelo qual temos que lutar.

Para começar com o cultivo de amor-bondade por um amigo, vamos observar que o amigo é alguém por quem já a gente tem metta. Uma das palavras em pali para amigo é “mitta” – podemos notar a semelhança óbvia entre as palavras metta e mitta. Um amigo é alguém cujo bem-estar importa para nós. Quando nossos amigos estão infelizes, ficamos incomodados; quando eles estão felizes, ficamos contentes.

Metta tem essa mesma simplicidade. É fácil perder de vista o fato de que metta é algo que já temos, mesmo que, muitas vezes, tenhamos perdido a conexão com ela na correria de nossas vidas. Mas nós já a temos, e precisamos primeiro nos reconectar com ela, para em seguida fortalecê-la por meio de nossa atenção.

Logo no início destes 100 dias, escrevi sobre algumas reflexões básicas para nos ajudar a nos reconectar com o nosso amor e bondade inerentes. Experimente estas dicas novamente como um exercício:

  • Você quer, em geral, ser feliz. Você não quer, em geral, sofrer. Permita que esta verdade penetre em sua mente e a deixe ressoar.
  • A felicidade é, muitas vezes, muito mais difícil de encontrar do que você imaginava que seria, e o sofrimento é algo que você experimenta com mais frequência do que gostaria. Permita que estas palavras também ressoem em sua mente. Tudo bem se for um pouco desconfortável: basta aceitar o desconforto.
  • Agora, após permitir que estes pensamentos penetrassem em sua mente e tendo percebido a veracidade deles em sua experiência, pergunte-se se há alguma parte de você que consiga reagir com apoio e simpatia consigo ao lidar com essa coisa difícil que é ser humano – ao cumprir esta tarefa que é viver, buscando a felicidade com esperança e sabendo que ela é elusiva, esperando e tentando evitar o sofrimento e descobrindo que ele surge com muita frequência.

Agora, aplique estas mesmas reflexões ao seu amigo:

  • Seu amigo quer ser feliz. Seu amigo não quer sofrer.
  • Para seu amigo, a felicidade é muitas vezes algo difícil de se encontrar, e o sofrimento é algo que ele experimenta com mais frequência do que gostaria. Permita tempo, mais uma vez, para que a veracidade destas reflexões penetrem, pois elas são verdadeiras para todos. Eu não acredito que haja alguém que olhe para a vida e diga: “sabe, está ótimo assim, mas prefiro ser um pouco menos feliz”.
  • E com a veracidade destas reflexões em mente, veja se há alguma parte de você preparada para torcer pelo seu amigo, desejando-lhe bem enquanto ele cumpre essa difícil tarefa de viver uma vida humana.

Não é complicado. Mas se o fizermos no início do segundo estágio da metta bhavana, a nossa prática de amor-bondade pode ser aplicada à vida, sem muito esforço. Metta – uma bondade básica que valoriza a felicidade dos outros – surge naturalmente a partir das reflexões acima. Metta está sempre ao alcance de uma reflexão.

Com metta (bondade),
Bodhipaksa

Acompanhe todas as traduções dessa série aqui.

Foto do destaque por obbino, intitulada “Eu e meus amigos” (CC BY-NC 2.0)
Áudio

Toda verdade

Os The Darma Lóvers

Nem sempre é fácil de ouvir
Toda verdade que você tiver para dizer

Ela não tem dono nem partido
Mas quantas vezes é difícil de saber
O que foi revelado ou esquecido
O quanto dela estão tentando esconder

Todos querem usar o seu nome
Só que não querem que ela possa aparecer
Quem sabe dando um tempo ela some
E todos voltam para casa sem se comprometer

Apesar de todas tentativas
Vai vir o dia em que ela virá nos lembrar
Que a mentira até pode ser vendida
Mas a verdade essa ninguém pode comprar

Gosto de me encontrar com ela
Embora saiba que nem sempre é alegria
Saber o que se passa fora e dentro
Ouvir as vezes coisas que não gostaria

Nem sempre é fácil de ouvir
Toda verdade que você tiver para dizer

Mas sempre é bom de saber
Toda verdade que você tiver para dizer

Toda Verdade é faixa do CD “Espaço!” do Os The Darma Lóvers, dupla que faz música a partir da “colagem de meditação budista + rock´n roll + MPB + psicodelia + tropicalismo & poesia” e “temática que vai do amor à impermanência, da alegria à reflexão”.

Jota de Copas

Dia 9: O que significa desejar que alguém seja feliz?

Bom fim de semana para todos! Eis a newsletter deste sábado, nono dia da campanha 100 Dias de Amor-Bondade, da Wildmind:

Ontem, discuti o que significa dizer “Que você esteja bem”, e como não se trata de simplesmente desejar saúde física. Hoje, gostaria de falar sobre o que significa dizer “Que você seja feliz” e, novamente, não é algo tão simples quanto parece.

Uma pergunta comum é por que devemos cultivar metta por pessoas que causam problemas para aqueles ao nosso redor, ou infligem dor aos outros. Naturalmente, não queremos que elas continuem espalhando destruição, mas queremos ser felizes mesmo quando elas o fizerem.

De um ponto de vista budista, a verdadeira felicidade não é algo que se pode colar em uma existência vivida de forma profundamente inabilidosa. A verdadeira felicidade é, na verdade, resultado de uma vida vivida com habilidade, e sendo assim, ao desejar que uma pessoa difícil seja feliz, estamos desejando que ela seja uma pessoa consciente e que crie felicidade. A psicologia ocidental diz a mesma coisa. Psicólogos descobriram que dentre as características de pessoas felizes estão andar rodeadas de amigos e parentes, não tentar se comparar aos vizinhos, perdoar facilmente, mostrar gratidão em abundância e ter generosidade para com os outros.

É provável que seu chefe – ​​materialista, obcecado por status e mal-humorado – não tenha muitos destes traços de caráter. Agora, é possível também que alguém tenha todas as qualidades hábeis mencionadas acima, e muitas outras, e ainda assim faça coisas que prejudiquem os outros. Algumas pessoas que normalmente são boas têm falhas profundas. Mas estas falhas são inevitavelmente uma fonte de conflito interno e sofrimento para elas, por isso, ao desejar que sejam felizes, desejamos que elas estejam livres das falhas que causam sofrimento a elas (e a outros).

Quando desejamos felicidade a alguém, estamos desejando que a pessoa se torne um ser humano empático, eticamente responsável e consciente. E, na verdade, isso é uma coisa difícil de se desejar a qualquer um. Quando deixamos de agir de forma inabilidosa e nos tornamos mais conscientes e amorosos, começamos a olhar para as nossas vidas e temos que aceitar a responsabilidade pelo mal que fizemos, ou que estamos fazendo. E isso é uma coisa muito dolorosa de se fazer. Lembro-me das palavras de Rilke: “Pois nela não há lugar / Que não te mire: precisas mudar de vida”. O auto-conhecimento torna-se o ponto a partir do qual somos vistos, e quando nos tornamos conscientes de nossas falhas, uma certa quantidade de tensão se desenvolve, até que, em algum momento, somos confrontados com a escolha entre continuar sofrendo com tal tensão ou mudar as nossas vidas – às vezes dolorosamente.

Muitos de nós passamos por isso quando começar a praticar meditação e budismo. É como se a vida de repente se tornasse mais complexa. Em vez de nosso problema ser o fato de termos um chefe detestável, agora é o fato de que (1) nosso chefe se comporta de uma maneira que não gostamos, e (2) precisamos gerenciar nossas próprias reações de forma ética. Em vez de um problema, agora temos dois!

Não estou sugerindo que a gente deseje dor a ninguém. Estou apenas lembrando que desejar a verdadeira felicidade a alguém não é esperar de que a pessoa ganhe um passe livre que lhe absolva do mal que causou. É desejar que a pessoa seja vista por sua própria consciência, e que faça o trabalho duro que esta “visão” exige.

Com metta (bondade),
Bodhipaksa

[Nota da tradução: o poema O torso arcaico de Apolo de Rainer Maria Rilke mencionado neste boletim foi traduzido em português por Paulo Quintela.]

Acompanhe todas as traduções dessa série aqui.

Nota

A importância do gato na meditação

O final de minha meditação na manhã de hoje foi marcado pela resistência – com bastante metta e equanimidade – aos pedidos (exigências?) de carinho e ao ronronar estrondoso de minha gata, que já subiu as escadas miando atrás de atenção e em poucos pulos alojou-se em meu colo, se esfregando em minha barriga e amassando minhas pernas com as patinhas (e unhas afiadas!).

Em meio à meditação, me lembrei desta crônica de Paulo Coelho, publicada no livro “Ser como um rio que flui”. Não é tanto sobre meditação – é mais sobre tradições e imposições sociais que deixamos arraigar de maneira inquestionável em nossas vidas, ora em forma de hábitos ou rituais, ora em forma de normas ou regras. Todas as frases que começam com “devemos”, “não devemos”, “deve-se”, “deveria” – com o verbo dever em todas as suas conjugações – estão nessa categoria.

O texto A importância do gato na meditação não deixa de ser, portanto, uma contemplação sobre a busca da verdade para além das aparências e convenções, inclusive a verdade de quem somos. E, como o Buda recomendava, sobre avaliar, passando pelo crivo de nossa experiência pessoal, todo e qualquer tipo de imposição ao nosso ser, questionando tudo e não aceitando nada simplesmente porque a maioria diz que deve ser de determinada maneira. Vamos a ele:

Tendo recentemente escrito um livro sobre a loucura (Veronika decide morrer), vi-me obrigado a perguntar o quanto das coisas que fazemos nos foi imposta por necessidade, ou por absurdo. Por que usamos gravata? Por que o relógio gira no “sentido horário”? Se vivemos num sistema decimal, porque o dia tem 24 horas de 60 minutos cada?

O fato é que, muitas da regras que obedecemos hoje em dia não tem nenhum fundamento. Mesmo assim, se desejemos agir diferente, somos considerados “loucos” ou “imaturos”. Enquanto isso, a sociedade vai criando alguns sistemas que, no decorrer do tempo, perdem a razão de ser, mas continuam impondo suas regras. Uma interessante história japonesa ilustra o que quero dizer:

Um grande mestre zen budista, responsável pelo mosteiro de Mayu Kagi, tinha um gato, que era sua verdadeira paixão na vida. Assim, durante as aulas de meditação, mantinha o gato ao seu lado – para desfrutar o mais possível de sua companhia.
Certa manhã, o mestre – que já estava bastante velho – apareceu morto. O discípulo mais graduado ocupou seu lugar.
– O que vamos fazer com o gato? – perguntaram os outros monges.

Numa homenagem à lembrança de seu antigo instrutor, o novo mestre decidiu permitir que o gato continuasse frequentando as aulas de zen-budismo. Alguns discípulos de mosteiros vizinhos, que viajavam muito pela região, descobriram que, num dos mais afamados templos do local, um gato participava das meditações. A história começou a correr.

Muitos anos se passaram. O gato morreu, mas os alunos do mosteiro estavam tão acostumados com a sua presença, que arranjaram outro gato. Enquanto isso, os outros templos começaram a introduzir gatos em suas meditações: acreditavam que o gato era o verdadeiro responsavel pela fama e a qualidade do ensino de Mayu Kagi, e esqueciam-se que o antigo mestre era um excelente instrutor

Uma geração se passou, e começaram a surgir tratados técnicos sobre a importancia do gato na meditação zen. Um professor universitário desenvolveu uma tese – aceita pela comunidade acadêmica – que o felino tinha capacidade de aumentar a concentração humana, e eliminar as energias negativas. E assim, durante um século, o gato foi considerado como parte essencial no estudo do zen-budismo naquela região.

Até que apareceu um mestre que tinha alergia a pelos de animais domésticos, e resolveu tirar o gato de suas práticas diárias com os alunos. Houve uma grande reação negativa – mas o mestre insistiu. Como era um excelente instrutor, os alunos continuavam com o mesmo rendimento escolar, apesar da ausência do gato.

Pouco a pouco, os mosteiros – sempre em busca de ideias novas, e já cansados de ter que alimentar tantos gatos – foram eliminando os animais das aulas. Em vinte anos, começaram a surgir novas teses revolucionárias – com títulos convincentes como “A importância da meditação sem o gato”, ou “Equilibrando o universo zen apenas pelo poder da mente, sem a ajuda de animais”.

Mais um século se passou, e o gato saiu por completo do ritual de meditação zen naquela região. Mas foram precisos duzentos anos para que tudo voltasse ao normal – já que ninguém se perguntou, durante todo este tempo, por que o gato estava ali.

E assim começou meu fim de semana. Enquanto isso, de manhã cedo, minha gata medita assim:

Ilustração de Kathy Crabbe (CC BY-NC-ND 2.0)

Ilustração de Kathy Crabbe (CC BY-NC-ND 2.0)

Citação

A meditação é uma função do estar feliz

“A meditação é necessária somente porque você não escolheu ser feliz. Se você tivesse escolhido ser feliz, não haveria nenhuma necessidade de meditação. A meditação é medicinal: se você está doente, então o medicamento é necessário. Os Budas não precisam de meditação. Uma vez que você começou a escolher a felicidade, uma vez que você decidiu que você tem que ser feliz, então nenhuma meditação é necessária. A meditação começará a acontecer naturalmente, por ela mesma.

A meditação é uma função do estar feliz. A meditação segue o homem feliz como uma sombra: em qualquer lugar que ele for, qualquer coisa que ele estiver fazendo, ele estará meditativo. Ele estará intensamente centrado. […]

A meditação ocorre naturalmente a uma pessoa feliz. A meditação ocorre naturalmente a uma pessoa alegre. A meditação é muito simples para uma pessoa que pode celebrar, que pode curtir a vida. Mas você tem tentado isso de uma outra maneira, e assim não é possível.”

~ Osho, em A Sudden Clash of Thunder (Tradução: Sw. Bodhi Champak). Fonte.

Dia 8: O que desejar bem a alguém significa?

Tradução da newsletter do oitavo dia da campanha 100 Dias de Amor-Bondade, da Wildmind:

Um ponto de discórdia entre algumas pessoas em relação à prática de amor-bondade é o significado de “desejar bem alguém”. O que significa “bem”?

Este assunto surgiu um dia desses, com uma pessoa que tem problemas de saúde que simplesmente não vão desaparecer. Ela nunca estará completamente saudável, de modo que nunca alcançará um bem-estar. Para que desejar algo que a pessoa não pode ter? Não seria mais uma fonte de sofrimento? E se você tiver um amigo que está morrendo de câncer, o que significa desejar que ele esteja bem? Ele não vai melhorar.

O Buda tem uma conversa onde comenta um de seus próprios ensinamentos. É um diálogo bastante fascinante, porque quando a gente lê o verso original, a gente acha que sabe o que o Buda quis dizer, embora quase certamente a gente esteja errado:

Saúde é o ganho mais precioso
e contentamento a maior riqueza.
Uma pessoa de confiança é o melhor parente,
Nibbāna* a maior felicidade

Está no Darmapada, versículo 204. É difícil imaginar algo mais simples do que a primeira linha, equivalente ao velho ditado “se você tiver saúde, tem tudo”. Quando um homem saudável, que se diria, portanto, feliz, menciona este verso para Buda, ele responde que não estava falando sobre a saúde física. O corpo é “uma calamidade e uma aflição”, mesmo quando saudável, aponta. Ele parece querer dizer que um corpo saudável é um corpo não-saudável esperando para acontecer.

A “saúde” a que Buda se refere é a liberdade do sofrimento mental, que em última análise é a iluminação (o nirvana da última linha). Até mesmo um ser iluminado fica fisicamente doente e passa por dor física e desconforto, mas não tem o sofrimento secundário que acompanha os sentimentos de aversão à doença e de desejo que a experiência fosse diferente do que é.

Pense sobre a auto-piedade que comumente experimentamos quando estamos doentes. Essa resistência à doença, essa atitude de “coitadinho de mim” e esse sentimento de termos sido atingidos pelo universo são muito mais dolorosos do que a doença em si. Tudo isso é deixado de lado quando nos iluminamos, e não mais temos aversão ou desejo. Não precisamos ser iluminados para experimentar esta liberdade, embora seja preciso ter esclarecido para experimentá-la permanentemente. Podemos experimentar a liberdade do sofrimento secundário agora, ao deixar de lado as histórias que contamos para nós mesmos sobre a nossa experiência e ficamos apenas com a experiência em si.

Quando dizemos “que eu esteja bem” ou “que você esteja bem”, estamos principalmente desejando a nós mesmos ou aos outros a liberdade do sofrimento secundário, ou seja, a aversão ou o desejo em relação à doença. Estamos desejando que o desconforto da doença seja experienciado conscientemente. Estamos desejando que a gente, ou a outra pessoa, esteja em paz com o que está acontecendo com o corpo.

Jon Kabat-Zinn colocou isso muito bem:

O tratamento não significa a cura, embora as duas palavras sejam muitas vezes usadas ​​como sinônimos. Embora nem sempre seja possível nos curar ou encontrar alguém que consiga nos curar, é sempre possível nos tratar. O tratamento implica a possibilidade de nos relacionarmos de forma diferente com a doença, a invalidez e a morte, ao aprendermos a ver com os olhos da totalidade. O tratamento é a reconciliação com as coisas como elas são.

Claro que é ótimo se você ou a outra pessoa puderem melhorar. Você pode desejar bem a alguém no sentido de que você espera que a pessoa recupere a saúde em breve. Mas, a longo prazo, todos nós vamos ficar doentes, e a paz e a felicidade verdadeiras virão da aceitação paciente de nossa doença. A gente aprende a ver com os olhos da totalidade e a aceitar, sem resistência ou aversão, até mesmo as experiências mais dolorosas.

Com metta (bondade),
Bodhipaksa

[Notas da tradução:
*nirvana, iluminação;
O Dhammapada, Darmapada ou Caminho do Dharma é um texto budista tradicionalmente considerado como tendo sido composto pelo próprio Buda. A tradução em português deste verso é de Bhikkhu Dhammiko, e foi publicada em “Dhammapada – O Caminho da Sabedoria do Buddha
Alguém tem alguma sugestão melhor para traduzir healing e cure na citação de Jon Kabat-Zinn? Ele começa com “Healing does not mean curing“]

Acompanhe todas as traduções dessa série aqui.

Zero Hora: Com ajuda da entrevistada, repórter dá os primeiros passos na meditação

No meio de uma entrevista com a médica Mariela Silveira sobre o valor da meditação para a saúde e para a qualidade de vida, a repórter do Jornal Zero Hora Fernanda Pandolfi parou a matéria para tentar meditar. Ela conta aqui como foi a experiência – destaco alguns trechos abaixo:

A Mariela me guiou, auxiliando na maneira exata de respirar e repetindo frases de tempo em tempo que me levaram a 15 minutos de transe. Tive espasmos, como se estivesse dormindo, e terminei a sessão com as mãos e o corpo quente.

“Vou praticar todos os dias”, pensei. Na primeira tentativa em casa, lembrei bastante da Julia Roberts nas primeiras cenas de templo budista no filme Comer, Rezar e Amar: tudo coçava, as costas doíam, o barulho dispersava e depois de uma eternidade de olhos fechados, passaram-se cinco minutos. Não poderia ser. Tentei novamente à noite e, dessa vez, quase dormi. Aliás, eu acho que ressonei por uns segundos. E assim, consecutivamente, naquela semana.

Com o girar do tempo – agora já se vai um mês -, a prática foi me ajudando. Diminuí a frequência, comecei a meditar só ao acordar e quando me sentia à vontade. Ainda não passei dos cinco minutos diários, mas já me sinto mais leve para levantar da cama e cumprir a agenda. Dos melhores ganhos que tive até agora: passei a abrir a persiana do meu quarto pelas manhãs, ato que andava esquecido por conta da correria e do relógio cronometrado.

Quotidiano

Inspiração / Expiração

Senta-se e coloca as mãos em cima da mesa.

Meio mundo à sua volta julga-se louco e ao outro meio mundo falta-lhe loucura.

Inspiração

Deixemo-nos de lérias:

– Há-que procurar o improvável! Esse é o verdadeiro néctar da vida!

Expiração

Levanta-se e vai fazer um chá.

Poema de Aurora Buzilis, publicado no blog arquétipo de mim.

Susann Probst

Foto: Susann Probst

Dia 7: Sorria a caminho do amor-bondade

Chegamos à primeira semana! Eis a newsletter do sétimo dia da campanha 100 Dias de Amor-Bondade, da Wildmind:

Se você olhar para uma estátua ou pintura do Buda, notará que ele é quase sempre retratado com um sorriso no rosto. Ele não tem um riso largo – o Buda é acima de tudo uma pessoa consciente e composta em relação a suas emoções – e sim um sorriso gentil e compassivo.

E adotar um sorriso, mesmo quando não nos sentimos com vontade de sorrir, é algo que pode nos ajudar a ser mais gentis, pois um sorriso é uma forma de comunicação, tanto interior quanto exterior.

Acho que hoje em dia quase todo mundo já sabe que sorrir afeta a nossa fisiologia e a forma como nos sentimos. Um estudo, por exemplo, levou pessoas a segurar chopsticks com os dentes de uma forma a criar um sorriso artificial. Os participantes não chegaram a perceber que estavam sorrindo, mas ainda assim tiveram a fisiologia alterada. Eles conseguiram recuperar-se mais rapidamente de situações estressantes do que os participantes não-sorridentes, e apresentaram batimentos cardíacos mais baixos. Estavam, literalmente, praticamente capazes de “sorrir e aguentar”.

Estudos semelhantes mostram que pessoas que estão sorrindo, mesmo desta forma artificial e sem saber, acham cartuns cômicos mais engraçados, experimentam mais prazer ao olharem para rostos (mesmo rostos infelizes), e apresentam um aumento de humor. Os efeitos sobre o humor são mais pronunciados em pessoas constrangidas – o que geralmente equivale, na minha experiência, a auto-criticismo. Sorrir altera a taxa e a profundidade da respiração e a frequência dos batimentos cardíacos, deixando ambos mais alinhados com a forma como o corpo se comporta quando estamos felizes. Também muda a temperatura do sangue que flui para o cérebro, o que pode ser uma das maneiras como o sorriso afeta nossas emoções.

Estes efeitos são modestos. Se estivermos passando por uma depressão profunda, ou de luto pela perda de um ente querido, não vamos “sair dessa” por causa da adoção de um sorriso. Mas em circunstâncias mais normais, podemos dar um empurrãozinho em nossas emoções na direção da felicidade, confiança e bondade simplesmente sorrindo.

Uma coisa que observei sobre sorrir é que isso me ajuda a transmitir uma sensação de bondade para com qualquer parte da minha experiência que eu esteja observando. Quando eu sorrio ao prestar atenção a uma parte do meu corpo que está doendo, ou a um sentimento doloroso, é como se estivesse enviando um sinal dizendo: “Está tudo bem. Tudo está OK. Há dor, claro, mas podemos lidar com ela”. Sorrir nos permite  comunicar tranquilidade para nós mesmos, o que cria uma dinâmica muito diferente de quando estamos passando por dor física ou emocional, estamos chateados ou desejamos escapar do desconforto. Essa rejeição da nossa experiência simplesmente provoca mais dor. Sorrir transmite confiança, e a confiança está, como eu indiquei há alguns dias, relacionada à nossa capacidade de ter boa vontade para com os outros. Quando nos falta confiança, tendemos a supor que não faremos a diferença ou que teremos só um efeito negativo, sobre os outros. É preciso confiança para pensar que a nossa bondade importa – que nós importamos.

Quando eu sorrio, não só eu sinto que meu coração abranda, mas tudo no mundo ao meu redor parece abrandar também, incluindo outras pessoas. Sorrir transmite benevolência. Pesquisas mostram que, quando sorrimos, as pessoas nos julgam com menos severidade; sorrir ajuda os outros a se sentir mais benevolentes. E isso certamente nos ajuda a nos sentir mais benevolentes também. O sorriso de Buda mostra não apenas felicidade, mas amor e compaixão por todos os seres. Quando sorrimos ao desejar que outras pessoas estejam bem, sentimos mais bondade para com elas.

Uma coisa linda sobre sorrir durante a meditação é que isso pode desencadear um ciclo de feedback onde sorrir nos deixa mais felizes e estar mais felizes nos faz sorrir. Como Thich Nhat Hanh diz: “Às vezes, a sua alegria é a fonte de seu sorriso, mas às vezes o seu sorriso pode ser a fonte de sua alegria”.

Então, sorrir é uma coisa fácil de fazer, eficaz e grátis. O que em si é motivo para sorrir.

Com metta (bondade),
Bodhipaksa

Acompanhe todas as traduções dessa série aqui.

Foto de Yacine Baroudi (CC BY 2.0)

Foto de Yacine Baroudi (CC BY 2.0)

Dia 6: Olhando com um olhar amoroso

Tradução da newsletter do sexto dia da campanha 100 Dias de Amor-Bondade, da Wildmind:

Vou compartilhar aqui uma maneira de se relacionar, que chamo de “olhar amoroso”. Se você participou do nosso desafio 28 dias de Meditação, será algo muito familiar. Peguei esta abordagem é emprestada de Jan Chozen Bays, que descreve a prática de “olhos amorosos” em Como Domar um Elefante. Neste livro, ela diz:

Sabemos usar olhos amorosos quando estamos nos apaixonando, quando vemos um bebezinho ou um animal fofinho. Por que não usar os olhos amorosos com mais frequência?

Então o que podemos fazer é nos lembrar, ou até mesmo apenas imaginar, a experiência de olhar com olhos amorosos. Podemos recordar ou imaginar que estamos olhando para um filho amado, um bem-querer, ou até mesmo um animal de estimação. Eu sempre me lembro de quando vejo os meus filhos dormindo. Acho que os sentimentos de carinho, apreço e aceitação são muito transferíveis, então uma vez que a gente tenha evocado um olhar amoroso dessa forma, podemos transferir os mesmos sentimentos ao olhar amorosamente para nós mesmos. Ao observar nosso corpo,  respiração, pensamentos, etc, podemos olhar para eles com olhos amorosos.

E uma vez que a gente o tenha evocado para nós mesmos, podemos então transferir o olhar amoroso para os outros: amigos, pessoas que não conhecemos, pessoas que estejam passando por dificuldades, animais, todos os seres…

Eu acho que esta é uma maneira muito rápida de ajudar a bondade a surgir.

E quando fazemos isso, tudo o que experimentamos parece tornar-se mais suave e mais leve. O mundo aparenta ser um lugar mais bonito, às vezes de tirar o fôlego. Mesmo as partes feias da vida parecem bonitas em sua feiúra. Podemos sentir que estamos apaixonados pela vida. E começamos a perceber que o mundo é a nossa experiência do mundo, o que não é separável de nós mesmos. E assim, quando mudamos, o mundo como percebemos também muda. O mundo de nossa experiência se torna mais amoroso, mais leve.

Há algo que Chozen diz sobre isso que sempre me deixa sentindo como se meu coração estivesse todo aberto:

Ver com olhos de amor não é uma experiência de via única, nem apenas uma experiência visual. Quando tocamos algo com olhos amorosos, levamos um certo calor do nosso lado, mas também podemos nos surpreender ao sentir o calor irradiando de volta para nós. Começamos a nos perguntar: será que tudo no mundo é feito de amor? E será que eu o estou bloqueando? [grifo nosso]

Experimente, tanto em sua prática de meditação quanto no seu cotidiano. Você pode começar agora mesmo, enquanto seus olhos passam pelas palavras na sua frente. Olhe com amor e, em seguida, leve esse olhar amoroso para a sua próxima atividade.

Com metta (bondade),
Bodhipaksa

Acompanhe todas as traduções dessa série aqui.