Dia 12: Seres sentimentais

Peço desculpas pela demora na tradução do boletim de hoje da campanha 100 Dias de Amor-Bondade, da Wildmind. A seguir:

Por muito tempo, quando estava crescendo, eu parecia estar completamente inconsciente de duas coisas. Primeiramente, que outros seres têm sentimentos. E segundo, que os sentimentos dos outros são tão importantes para eles quanto os meus o são para mim.

Pode parecer tão óbvio que você se pergunta como foi possível negligenciar estes pontos, ou até como podem ser tema de uma revelação. Mas, ao que parece, todos nós temos problemas em reconhecer estes fatos simples. Nenhum de nós gosta de se sentir machucado, entretanto frequentemente fazemos coisas que ferem os sentimentos das pessoas, seja por meio de nossas expressões faciais, nossas palavras ou gestos.

Se a gente conseguisse manter em vista que os outros querem ser felizes e não querem sofrer, a maioria de nós comportar-se-ia completamente diferentemente. Quando a gente valoriza e honra os sentimentos dos outros tanto quanto os nossos, ferir outra pessoa é ferir a nós mesmos.

Há um outro aspecto importante nisso tudo, que é o fato de que também temos que cuidar de nossos próprios sentimentos. Se você foi criado em um ambiente emocionalmente hostil – talvez com muito criticismo ou sarcasmo – pode ser que tenha se acostumado a se sentir machucado e infeliz, ao ponto de ter esquecido de que há uma alternativa. Você se acostumou tanto a descontar a sua própria dor que você nem pensa em levar em consideração os sentimentos de outras pessoas. Pode ser que seja necessário trabalhar para reconhecer os seus próprios sentimentos e aprender novamente que você prefere a felicidade em vez da infelicidade, antes que você possa desenvolver empatia para com os outros.

Eu sugiro, porém, que você tenha em mente este pensamento no seu cotidiano. Quando estiver conversando com uma pessoa, ou se estiver pensando em alguém enquanto dirige, ou anda, ou faz compras, lembre-se: trata-se de um ser sentimental. Os sentimentos dele são tão importantes para ele quanto os meus são para mim. Quer ser feliz e não quer sofrer.

Experimente e veja como o seu comportamento muda, e como muda a maneira como você se sente.

Com metta (bondade),

Bodhipaksa

Acompanhe todas as traduções dessa série aqui.

Jota de Copas

Dia 9: O que significa desejar que alguém seja feliz?

Bom fim de semana para todos! Eis a newsletter deste sábado, nono dia da campanha 100 Dias de Amor-Bondade, da Wildmind:

Ontem, discuti o que significa dizer “Que você esteja bem”, e como não se trata de simplesmente desejar saúde física. Hoje, gostaria de falar sobre o que significa dizer “Que você seja feliz” e, novamente, não é algo tão simples quanto parece.

Uma pergunta comum é por que devemos cultivar metta por pessoas que causam problemas para aqueles ao nosso redor, ou infligem dor aos outros. Naturalmente, não queremos que elas continuem espalhando destruição, mas queremos ser felizes mesmo quando elas o fizerem.

De um ponto de vista budista, a verdadeira felicidade não é algo que se pode colar em uma existência vivida de forma profundamente inabilidosa. A verdadeira felicidade é, na verdade, resultado de uma vida vivida com habilidade, e sendo assim, ao desejar que uma pessoa difícil seja feliz, estamos desejando que ela seja uma pessoa consciente e que crie felicidade. A psicologia ocidental diz a mesma coisa. Psicólogos descobriram que dentre as características de pessoas felizes estão andar rodeadas de amigos e parentes, não tentar se comparar aos vizinhos, perdoar facilmente, mostrar gratidão em abundância e ter generosidade para com os outros.

É provável que seu chefe – ​​materialista, obcecado por status e mal-humorado – não tenha muitos destes traços de caráter. Agora, é possível também que alguém tenha todas as qualidades hábeis mencionadas acima, e muitas outras, e ainda assim faça coisas que prejudiquem os outros. Algumas pessoas que normalmente são boas têm falhas profundas. Mas estas falhas são inevitavelmente uma fonte de conflito interno e sofrimento para elas, por isso, ao desejar que sejam felizes, desejamos que elas estejam livres das falhas que causam sofrimento a elas (e a outros).

Quando desejamos felicidade a alguém, estamos desejando que a pessoa se torne um ser humano empático, eticamente responsável e consciente. E, na verdade, isso é uma coisa difícil de se desejar a qualquer um. Quando deixamos de agir de forma inabilidosa e nos tornamos mais conscientes e amorosos, começamos a olhar para as nossas vidas e temos que aceitar a responsabilidade pelo mal que fizemos, ou que estamos fazendo. E isso é uma coisa muito dolorosa de se fazer. Lembro-me das palavras de Rilke: “Pois nela não há lugar / Que não te mire: precisas mudar de vida”. O auto-conhecimento torna-se o ponto a partir do qual somos vistos, e quando nos tornamos conscientes de nossas falhas, uma certa quantidade de tensão se desenvolve, até que, em algum momento, somos confrontados com a escolha entre continuar sofrendo com tal tensão ou mudar as nossas vidas – às vezes dolorosamente.

Muitos de nós passamos por isso quando começar a praticar meditação e budismo. É como se a vida de repente se tornasse mais complexa. Em vez de nosso problema ser o fato de termos um chefe detestável, agora é o fato de que (1) nosso chefe se comporta de uma maneira que não gostamos, e (2) precisamos gerenciar nossas próprias reações de forma ética. Em vez de um problema, agora temos dois!

Não estou sugerindo que a gente deseje dor a ninguém. Estou apenas lembrando que desejar a verdadeira felicidade a alguém não é esperar de que a pessoa ganhe um passe livre que lhe absolva do mal que causou. É desejar que a pessoa seja vista por sua própria consciência, e que faça o trabalho duro que esta “visão” exige.

Com metta (bondade),
Bodhipaksa

[Nota da tradução: o poema O torso arcaico de Apolo de Rainer Maria Rilke mencionado neste boletim foi traduzido em português por Paulo Quintela.]

Acompanhe todas as traduções dessa série aqui.

Cem dias de amor-bondade

A comunidade de meditação budista Wildmind promove, a partir desta sexta 31 de janeiro, o evento online 100 Dias de Amor-Bondade, uma oportunidade de, ao longo de um período de pouco mais de três meses, trazer mais compaixão e bondade a nossas vida.

Conhecida em inglês como Loving-Kindness e em português como meditação de amor-bondade ou da compaixão, a  Mettã ou Metta Bhavana é uma das mais antigas formas de prática budista, transmitida em uma linha ininterrupta de mais de 2.500 anos. O objetivo é o desenvolvimento de sentimentos de amor incondicional, empatia, bondade e compaixão em relação a si mesmo, outras pessoas e, eventualmente, em relação a todas as formas de vida.

Uma pesquisa publicada em 2012 pela Revista Brasileira de Medicina de Família e Comunidade demonstrou que prática dessa meditação “mostra-se como uma ferramenta útil e promissora como recurso complementar no tratamento de diversas doenças, tanto fisiológicas quanto psicológicas, demonstrando-se ainda como poderoso recurso auxiliar ao processo psicoterapêutico, trazendo inúmeros benefícios aos seus praticantes”.

Durante os 100 Dias de Amor-Bondade, aprenderemos a:

  • Apreciar que a bondade é algo inerente em nosso ser, e que só precisa ser alimentada
  • Ser gentil conosco
  • Ser menos irritadiço e mais paciente com os outros
  • Desenvolver aceitação em vez de fazer julgamentos
  • Desenvolver compaixão genuína
  • Evitar a “compaixão idiota” (onde negamos as nossas próprias necessidades para servir os outros )
  • Tornar-mos mais sensíveis e ver o melhor nos outros
  • Ganhar equilíbrio ao lidar com as dificuldades da vida

Ao se inscrever, você vai receber diariamente um lembrete para a prática, com links para meditações guiadas e outros recursos. Há também uma comunidade no Google Plus, onde os membros podem fazer perguntas, compartilhar a experiência e obter apoio e encorajamento. A participação em 100 dias de Bondade é aberta a todos e gratuita (doações são aceitas) – inscreva-se aqui.

Os comunicados serão em inglês. Com o intuito de ampliar a mensagem, vou me esforçar para traduzir parte do material e publicar aqui. Acompanhe!