Mais mindfulness, menos meditação

Artigo de Tony Schwartz, postado originalmente no The New York Times DealBook em 31 de janeiro de 2014, com tradução (não autorizada) minha. Sobre o autor: Tony Schwartz é presidente-executivo do Energy Project e autor do livro Envolvimento Total: Gerenciando Energia e Não o Tempo.

Eis a promessa: Meditação – e em particular meditação mindfulness (atenção plena) – reduzirá o seu nível de cortisol, pressão arterial, ansiedade social e depressão. Vai aumentar a resposta de seu sistema imunológico, resistência e foco, e melhorará seus relacionamentos – inclusive consigo mesmo. Também reforçará o seu desempenho no trabalho e proporcionará a paz interior. Pode até mesmo curar a psoríase.

O rapper 50 Cent medita, assim como Lena Dunham e Alanis Morissette. Steven P. Jobs meditava e a prática de mindfulness está varrendo o Vale do Silício. De sábado a oito, 2 mil executivos de tecnologia e outros candidatos participarão da Wisdom 2.0, uma conferência esgotada que tornou-se repentinamente um evento imperdível para os entendidos. Até mesmo Rupert Murdoch tentou meditar, resumindo sua tentativa em um tweet a la haikai: “Todo mundo recomenda, não é fácil começar, mas dizem que melhora tudo”.

É mesmo? Pelo que vale, não concordo.

Eu aprendi a meditar há 25 anos, construí uma prática diária de atenção plena e passei centenas de horas sentado com os olhos fechados e as pernas cruzadas. Também entrevistei dezenas de praticantes de meditação, incluindo os professores mais proeminentes, para um livro que escrevi em 1995 chamado “What Really Matters: Searching for Wisdom in America” [O que realmente importa: A procura pela sabedoria na América do Norte, em tradução livre].

Mas quanto mais tempo eu passava meditando, menos valor que eu tirava da prática. O que não quer dizer que eu ache que não traga nenhum benefício.

A definição mais simples de meditação é aprender a fazer uma coisa de cada vez. Construir a capacidade de acalmar a mente tem inegável valor em tempos em que nossa atenção encontra-se sob cerco fechado, e a distração se tornou nosso estado estacionário. A meditação – em dose correta – também é importante como uma forma de relaxar o corpo, acalmar as emoções e refrescar a energia da pessoa. Há evidências cada vez maiores de que a meditação traz alguns benefícios para a saúde.

Eu não vejo muitas evidências, entretanto, de que a meditação leva as pessoas a se comportarem melhor, melhora seus relacionamentos ou as torna mais felizes.

Considere o que Jack Kornfield tem a dizer sobre a meditação. Na década de 70, depois de passar vários anos como um monge no Sudeste da Ásia, Kornfield foi um dos primeiros norte-americanos a levar a prática da atenção plena para o Ocidente. Ele continua sendo um dos professores de mindfulness mais conhecidos, além de trabalhar como psicólogo.

“Enquanto eu me beneficiei enormemente da formação nos mosteiros tailandeses e birmaneses onde pratiquei”, escreveu ele, “notei duas coisas marcantes. Primeiro, havia áreas principais de dificuldades na minha vida, como solidão, relacionamentos íntimos, trabalho, feridas da infância e padrões de medo que nem mesmo a meditação muito profunda tocou”.

“Em segundo lugar, dentre as várias dezenas de monges ocidentais (e muitos meditadores asiáticos) que conheci durante minha temporada na Ásia, com algumas exceções notáveis, a maioria não foi ajudada pela meditação em grandes áreas de suas vidas. Meditação e prática espiritual podem ser facilmente usadas para suprimir e evitar sentimentos ou para escapar de áreas difíceis de nossas vidas”.

Então, como usar a meditação para tirar melhor proveito?

Em primeiro lugar, não espere mais do que ela pode fazer.

No mundo moderno, a meditação é muito mais eficaz como uma técnica de auto-gestão, e não como um meio de transformação pessoal nem muito menos para a iluminação.

Em segundo lugar, comece com simplicidade.

Mindfulness – ou “vipassana” – é um tipo específico de prática meditativa do budismo Theravada. Trata-se de aprender a observar os pensamentos, sentimentos e sensações que podem surgir e passar, sem prender-se a eles. Ao construir a capacidade de testemunhar a própria experiência, sem apego ou reação, segundo o ensinamento, a pessoa lentamente começa a ver além da ilusão de permanência e separação.

O problema com a atenção plena como um ponto de partida é que trata-se de uma prática avançada. No ensino tradicional, os alunos aprendem primeiro a estabilizar a atenção através de “samatha”, ou meditação de concentração. A concentração envolve o foco em um único objeto de atenção, tal como a respiração ou mantra, como na meditação transcendental. Somente quando os alunos aprendem a acalmar a mente de forma confiável – um processo que muitas vezes leva anos – é que a prática mais sutil e avançada de vipassana é introduzida.

Na minha experiência, a meditação de concentração é uma forma mais simples e mais confiável do que a atenção plena para ajudar no controle de sua atenção, calma e relaxamento – especialmente para aqueles que estão nos estágios iniciais da prática.

Finalmente, não presuma que mais é melhor.

“A prática de mindfulness tem seus benefícios”, afirmou Catherine Ingram, autora do livro Passionate Presence [Presença Passional, em tradução livre], “mas no meu caso, após 17 anos de prática, cheguei a um ponto em que observar mentalmente minha respiração, pensamentos e sensações se tornou cansativo, uma sensação de sempre ter dever de casa e de constantemente picar a realidade em pedacinhos”.

Até mesmo alguns minutos sentando-se calmamente e seguindo a respiração ajuda bastante. Eu considero especialmente eficaz inspirar a uma contagem de três e expirar a uma contagem de seis – efetivamente estendendo a expiração e aprofundando a experiência de relaxamento. A contagem é também um objeto eficaz de atenção, e, em função disso, aumenta a concentração.

Eu também descobri que é realmente mais prático se concentrar e relaxar por um minuto ou dois várias vezes por dia do que meditar por um longo período e em constante batalha contra a distração ao longo do caminho.

Há uma diferença entre a meditação mindfulness e simples mindfulness. Esta última não é uma prática separada da vida cotidiana. Mindfulness significa simplesmente nos tornar mais consciente do que estamos sentindo, trazer mais intenção para nossos comportamentos e estar mais atentos ao nosso impacto sobre os outros. Tem a ver com presença – o que a Ingram chama de “se manter silencioso e simples por dentro, em vez de desempenhar qualquer tarefa mental que seja”.

O verdadeiro desafio não é o que somos capazes de fazer com nossos olhos fechados. É ser mais auto-conscientes no cadinho da nossas vidas cotidianas, e nos comportarmos melhor como resultado. Isso é mindfulness em ação.

Foto do destaque: ConnectIrmeli (CC BY-NC-ND 2.0)

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Escolas “problemáticas” transformam-se com meditação

Meditação está propiciando melhoria de notas, aumento de frequência e declínio da violência nas escolas de ensino médio mais  “problemáticas”  de San Francisco, nos Estados Unidos. A mudança no comportando foi notada depois da adoção, em 2007, do programa Quiet Time (Tempo Tranquilo), uma estratégia de redução de estresse baseada em meditação: duas vezes por dia, um gongo interrompe o barulho nas salas de aula e os adolescentes, que normalmente não conseguem ficar parados por nem 10 segundos, fecham os olhos e tentam esvaziar suas mentes.

Se estudos mostram que a integração da meditação ao cotidiano de uma escola pode melhorar significativamente a vida dos estudantes, a prova está na prática e pode ser vista na mudança de comportamento sentida na primeira escola pública dos Estados Unidos a adotar o programa, em 2007. A  Visitacion Valley Middle School fica situada em um bairro violento, onde nove tiroteios foram registrados em dezembro de 2013, e a maioria dos alunos matriculados na escola conhece alguém que já levou ou disparou tiros.

Esses alunos, antes considerados “fora do controle”, eram conhecidos por frequentemente envolver-se em brigas nos corredores, rabiscar as paredes e agredir professores. As taxas de absentismo estavam entre as mais altas da cidade e os professores, desgastados, adoeciam rotineiramente. Para remediar o problema, a escola tentou desde o aconselhamento e apoio psicológico, incentivo aos esportes e aulas particulares depois da escola – nada com muito efeito, até que o Quiet Time for instituído.

No primeiro ano de Quiet Time, o índice de suspensões caiu em 45 por cento. Em quatro anos, esse índice ficou entre os mais baixas da cidade. Em contraponto, as taxas de frequência diária subiram para 98 por cento, bem acima da média municipal. As notas também melhoraram significativamente, e cerca de 20 por cento dos alunos da Visitacion Valley Middle School passaram a ser admitidos na escola Lowell High School – mais disputada – uma raridade antes do programa. Segundo levantamento anual Crianças Saudáveis da Califórnia​​, esses jovens de ensino médio alcançaram os maiores níveis de felicidade de San Francisco.

De acordo com David L. Kirp, professor de políticas públicas da Universidade da Califórnia, em Berkeley, e autor de “Improbable Scholars: The Rebirth of a Great American School District and a Strategy for America’s Schools” (Estudiosos  Improváveis: O Renascimento de um Grande Distrito Escolar Norte-americano e uma Estratégia para as Escolas da América do Norte, em tradução livre), as outras três escolas que adotaram o Quiet Time apresentam relatórios  igualmente positivos, com estudantes em escolas participantes sofrendo significativamente menos de estresse e depressão e apresentando maior auto-estima, comparando com alunos não participantes. Os professores também relatam sentirem-se menos desgastados emocionalmente e mais resilientes.

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Barry Zito, David Lynch, Russell Brand meditam com estudantes na escola Burton High durante o Quiet Time. Foto: Lea Suzuki, The Chronicle

Dentre os apoiadores do programa Quiet Time estão alguns grandes nomes, como o diretor de cinema David Lynch, o ex- arremessador Giants Barry Zito e do ator e comediante Russell Brand (foto ao acima).

Fontes:
San Francisco Chronicle
SF’s Toughest Public Schools Calmed — By Meditation