Nota

A importância do gato na meditação

O final de minha meditação na manhã de hoje foi marcado pela resistência – com bastante metta e equanimidade – aos pedidos (exigências?) de carinho e ao ronronar estrondoso de minha gata, que já subiu as escadas miando atrás de atenção e em poucos pulos alojou-se em meu colo, se esfregando em minha barriga e amassando minhas pernas com as patinhas (e unhas afiadas!).

Em meio à meditação, me lembrei desta crônica de Paulo Coelho, publicada no livro “Ser como um rio que flui”. Não é tanto sobre meditação – é mais sobre tradições e imposições sociais que deixamos arraigar de maneira inquestionável em nossas vidas, ora em forma de hábitos ou rituais, ora em forma de normas ou regras. Todas as frases que começam com “devemos”, “não devemos”, “deve-se”, “deveria” – com o verbo dever em todas as suas conjugações – estão nessa categoria.

O texto A importância do gato na meditação não deixa de ser, portanto, uma contemplação sobre a busca da verdade para além das aparências e convenções, inclusive a verdade de quem somos. E, como o Buda recomendava, sobre avaliar, passando pelo crivo de nossa experiência pessoal, todo e qualquer tipo de imposição ao nosso ser, questionando tudo e não aceitando nada simplesmente porque a maioria diz que deve ser de determinada maneira. Vamos a ele:

Tendo recentemente escrito um livro sobre a loucura (Veronika decide morrer), vi-me obrigado a perguntar o quanto das coisas que fazemos nos foi imposta por necessidade, ou por absurdo. Por que usamos gravata? Por que o relógio gira no “sentido horário”? Se vivemos num sistema decimal, porque o dia tem 24 horas de 60 minutos cada?

O fato é que, muitas da regras que obedecemos hoje em dia não tem nenhum fundamento. Mesmo assim, se desejemos agir diferente, somos considerados “loucos” ou “imaturos”. Enquanto isso, a sociedade vai criando alguns sistemas que, no decorrer do tempo, perdem a razão de ser, mas continuam impondo suas regras. Uma interessante história japonesa ilustra o que quero dizer:

Um grande mestre zen budista, responsável pelo mosteiro de Mayu Kagi, tinha um gato, que era sua verdadeira paixão na vida. Assim, durante as aulas de meditação, mantinha o gato ao seu lado – para desfrutar o mais possível de sua companhia.
Certa manhã, o mestre – que já estava bastante velho – apareceu morto. O discípulo mais graduado ocupou seu lugar.
– O que vamos fazer com o gato? – perguntaram os outros monges.

Numa homenagem à lembrança de seu antigo instrutor, o novo mestre decidiu permitir que o gato continuasse frequentando as aulas de zen-budismo. Alguns discípulos de mosteiros vizinhos, que viajavam muito pela região, descobriram que, num dos mais afamados templos do local, um gato participava das meditações. A história começou a correr.

Muitos anos se passaram. O gato morreu, mas os alunos do mosteiro estavam tão acostumados com a sua presença, que arranjaram outro gato. Enquanto isso, os outros templos começaram a introduzir gatos em suas meditações: acreditavam que o gato era o verdadeiro responsavel pela fama e a qualidade do ensino de Mayu Kagi, e esqueciam-se que o antigo mestre era um excelente instrutor

Uma geração se passou, e começaram a surgir tratados técnicos sobre a importancia do gato na meditação zen. Um professor universitário desenvolveu uma tese – aceita pela comunidade acadêmica – que o felino tinha capacidade de aumentar a concentração humana, e eliminar as energias negativas. E assim, durante um século, o gato foi considerado como parte essencial no estudo do zen-budismo naquela região.

Até que apareceu um mestre que tinha alergia a pelos de animais domésticos, e resolveu tirar o gato de suas práticas diárias com os alunos. Houve uma grande reação negativa – mas o mestre insistiu. Como era um excelente instrutor, os alunos continuavam com o mesmo rendimento escolar, apesar da ausência do gato.

Pouco a pouco, os mosteiros – sempre em busca de ideias novas, e já cansados de ter que alimentar tantos gatos – foram eliminando os animais das aulas. Em vinte anos, começaram a surgir novas teses revolucionárias – com títulos convincentes como “A importância da meditação sem o gato”, ou “Equilibrando o universo zen apenas pelo poder da mente, sem a ajuda de animais”.

Mais um século se passou, e o gato saiu por completo do ritual de meditação zen naquela região. Mas foram precisos duzentos anos para que tudo voltasse ao normal – já que ninguém se perguntou, durante todo este tempo, por que o gato estava ali.

E assim começou meu fim de semana. Enquanto isso, de manhã cedo, minha gata medita assim:

Ilustração de Kathy Crabbe (CC BY-NC-ND 2.0)

Ilustração de Kathy Crabbe (CC BY-NC-ND 2.0)