Equívoco 1: “Meditar é parar de pensar”

Talvez este o maior equívoco seja achar que o objetivo da meditação é alcançar um estado de mente vazia, limpída, sem pensamentos. O segundo, na mesma linha, é achar que é controlar a mente, eliminando os chamados pensamentos negativos ou intrusivos. Como consequência, muita gente diz que não consegue meditar simplesmente por não conseguir deter o fluxo da mente, que segue mais ou menos assim:

[concentração na respiração] [ommmmmmm]café, pão, manteiga, ovos, bolo [ops, ommmmmmm] por falar nisso, não posso esquecer do aniversário de… [ops, ommmmmmm] será que dá tempo de dar uma passadinha no shopping? [merda, shiiiiiiiiii, ommmmmmm] acho que não, poderia ter ido agora… essa coisa de meditar é perda de tempo… merda, estou pensando de novo, putz, xinguei! [ommmmmmm] e se… [ommmmmmm] Esse ommmm não está funcionando, melhor começar de novo, contando a respiração [1…2…] agora consigo parar de pensar [3…4…] será que já passou quanto tempo mesmo? [3…4…] eu estava em que número mesmo?

A mente existe para pensar, e uma comparação interessante que Susan Piver oferece é que pedir para a mente parar de pensar seria o mesmo que abrir os olhos e pedir para que eles não vissem nada: se não for uma tarefa impossível, tentar fazer isso é tremendamente frustrante. Ela sugere que em vez de tentar fazer a mente para de pensar, ou forcá-la a apenas pensar coisas positivas, o convite da meditação deve ser contemplar o fato de que somos mais do que nossa mente, aceitando mais relaxadamente o que está lá: pensamentos bons, feios, confusos, importantes, triviais, enfim, tudo o que passa na cabeça pode ser incluído na meditação.

A diferença é que durante a meditação, sendo meditar um processo para conhecermos melhor a nossa mente e mudarmos o nosso relacionamento com ela, procuramos fazer uso desses pensamentos, em vez de nos deixarmos levar por eles. Ou seja, assumimos o controle, no papel de observadores neutros de nossa mente, em vez de seguirmos dominados por ela.  Jon Kabat-Zinn explica:

Pois meditação e, especialmente, a meditação mindfulness (ou atenção plena), não é lançar mão de um interruptor e catapultar-se em algum lugar, nem é alimentar certos pensamentos e livrar-se de outros. Nem é tornar a mente vazia ou querer ficar pacífico ou relaxado. É, na verdade, um gesto interior de inclinar o coração e a mente (vistos como um conjunto harmonioso) em direção a uma consciência do espectro total do momento presente tal como ele é, aceitando tudo o que está acontecendo, simplesmente porque já está acontecendo. Essa orientação interior é muitas vezes referida em psicoterapia como “aceitação radical”. Este é um trabalho árduo, uma tarefa muito difícil, especialmente quando o que está acontecendo não está de acordo com nossas expectativas, desejos e fantasias. E nossas expectativas, desejos e fantasias são onipresentes e aparentemente intermináveis. Podem colorir tudo, às vezes de formas muito sutis que não são totalmente evidentes, especialmente quando estamos falando da prática da meditação e questões de “progresso” e “realização”.

Eu particularmente acho útil analisar objetivamente o que vem à minha mente, sem julgar ou reagir. Funciona assim: quando percebo que minha mente está divagando, trago minha atenção para o fato, notando a qualidade do pensamento e dizendo: “minha mente está planejando”, ou “há uma preocupação com o trabalho”, ou “elaborando na lista de compras”, ou apenas “ansiedade”. Em seguida, aproveito o momento em que “peguei minha mente no flagra” e faço a escolha consciente de voltar a atenção para o momento presente, observando a “âncora” – respiração, mantra ou sensações no corpo, ou qualquer outro objeto de meditação que eu tenha escolhido. E faço questão de abrir um sorriso e celebrar com ar vitorioso: estou de volta. Esse processo acontece centenas de vezes a cada “sentada”!

Quanto ao equívoco de que meditar é esvaziar a mente, a verdade é que esse mito deve ter surgido do fato de que o estado de mente vazia ou ausência de pensamentos pode até acontecer de vez em quando (e quando menos se espera), porém naturalmente e como efeito colateral de uma prática diária de meditação e não como fruto de nosso esforço. À medida que a meditação se estabelece como prática, a gente aprende a fortalecer o foco no momento presente e a mente vai asserenando, ou para usar a analogia de Andy Puddicombe, é como se a gente sentasse na calçada para observar o trânsito na nossa frente, sem querer parar os carros ou mudar a direção deles, e de repente notar que o volume de veículos diminuiu.

Esvaziar a mente, portanto, não deve ser nunca o objetivo, ou mesmo motivação inicial, da meditação. Observe-a de perto!

Fontes:
Open Heart Project
Andy Puddicombe e How Does Meditation Work, video do projeto HeadSpace
Coming to Our Senses: Healing Ourselves and the World Through Mindfulness, livro de Jon Kabat-Zin, fundador da Clínica de Redução do Stress e do Centro de Atenção Plena em Medicina, na Escola Médica da Universidade de Massachusetts.

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