Dia 11: Converse gentilmente consigo mesmo

Mais uma semana na campanha 100 Dias de Amor-Bondade, da Wildmind. Eis a tradução da newsletter de hoje, dia 11:

Pensamentos fluem constantemente na mente, formando uma espécie de “diálogo interno”. A maneira como falamos conosco pode ser gentil ou hostil, e quando falamos conosco com hostilidade, causamos sofrimento a nós mesmos.

Muita gente se critica severamente – “eu sou tão idiota!” – de uma maneira muito áspera. Ou pode ter conversas zangadas circulando na própria mente. Outros podem pensar sobre coisas que estão dando errado em suas vidas e generalizá-las, pensando que suas vidas como um todo estão dando errado. Ou podem supor que outras pessoas estão tendo pensamentos hostis sobre eles. Todos estas formas de diálogo interno fazem com que a gente sofra.

Sendo assim, uma pergunta boa para se ter em mente enquanto a gente vai lidando com a vida é: “como a maneira como eu estou falando comigo está afetando a forma como me sinto?”. Portanto, hoje, veja se você consegue observar a conexão entre seus pensamentos e sentimentos. O seu diálogo interno está lhe ajudando a ser mais amoroso, mais expansivo, mais em paz, mais contente, mais presente, mais fortalecido? O seu diálogo interno está levando você a se sentir neutro? Ou seu diálogo interno está fazendo com que você se sinta isolado, estressado, abatido, irritado ou ansioso?

Naturalmente, nem todos os seus sentimentos são relacionados ao que você pensa, mas quase tudo que você pensa tem um efeito na forma como você se sente.

É importante aprender a observar essa conexão entre pensamentos e sentimentos sem julgamento. É muito fácil perceber que nossos pensamentos fazem com que a gente se sinta mal, e em seguida começar a nos culpar, ficando deprimidos ou raivosos. Em vez de reagir dessa forma, veja se você consegue aceitar que é simplesmente normal que a mente fique fora de controle e nos cause sofrimento dessa forma. É simplesmente o que a mente faz. Isso não quer dizer que você está fazendo alguma coisa errada; é parte da experiência de ser humano.

Faça o melhor que puder para deixar passar pensamentos que não ajudem e para voltar a observar as sensações físicas que aparecem no corpo. Observe o mundo sensorial a sua volta. Quanto mais a gente se ancora na experiência sensorial, menos a gente pensa, portanto temos menos pensamentos negativos.

Talvez você queira ainda introduzir alguns pensamentos úteis – honestos, amáveis, compassivos. Pensamentos deste tipo contradizem as inverdades e exageros que você tem dito para si mesmo. As frases de metta, “Que eu esteja bem; que eu seja feliz; que eu esteja em paz”, funcionam bem, embora haja outras afirmações ou declarações ao seu alcance que são mais específicas para a sua situação.

Ao deixar que pensamentos inúteis passem, ou ao substitui-los por pensamentos mais honestos e mais compassivos, a maneira como você se sente mudará. Pode ser uma mudança pequena, mas como o Buda disse, “Que não se pense levianamente acerca do bem, dizendo: “A mim ele não me tocará.” A água que cai em gotas enche um cântaro. Da mesma forma, o sábio, pouco a pouco, enche-se de bem”.*

Você pode confiar neste processo. Não, você não vai erradicar o seu sofrimento ou seus hábitos mentais inúteis. Mas você tem o poder de deixar passar os pensamentos, um por um, repetidamente, e você tem o poder cultivar pensamentos úteis. E de gota em gota em gota, nossos corações tornam-se cheios de bondade, compaixão e alegria.

Com metta (bondade),
Bodhipaksa

[Notas da tradução: *trecho 122 do Dhammapada traduzido em português por Bhikkhu Dhammiko, e foi publicada em “Dhammapada – O Caminho da Sabedoria do Buddha”]

Acompanhe todas as traduções dessa série aqui.

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Nota

A importância do gato na meditação

O final de minha meditação na manhã de hoje foi marcado pela resistência – com bastante metta e equanimidade – aos pedidos (exigências?) de carinho e ao ronronar estrondoso de minha gata, que já subiu as escadas miando atrás de atenção e em poucos pulos alojou-se em meu colo, se esfregando em minha barriga e amassando minhas pernas com as patinhas (e unhas afiadas!).

Em meio à meditação, me lembrei desta crônica de Paulo Coelho, publicada no livro “Ser como um rio que flui”. Não é tanto sobre meditação – é mais sobre tradições e imposições sociais que deixamos arraigar de maneira inquestionável em nossas vidas, ora em forma de hábitos ou rituais, ora em forma de normas ou regras. Todas as frases que começam com “devemos”, “não devemos”, “deve-se”, “deveria” – com o verbo dever em todas as suas conjugações – estão nessa categoria.

O texto A importância do gato na meditação não deixa de ser, portanto, uma contemplação sobre a busca da verdade para além das aparências e convenções, inclusive a verdade de quem somos. E, como o Buda recomendava, sobre avaliar, passando pelo crivo de nossa experiência pessoal, todo e qualquer tipo de imposição ao nosso ser, questionando tudo e não aceitando nada simplesmente porque a maioria diz que deve ser de determinada maneira. Vamos a ele:

Tendo recentemente escrito um livro sobre a loucura (Veronika decide morrer), vi-me obrigado a perguntar o quanto das coisas que fazemos nos foi imposta por necessidade, ou por absurdo. Por que usamos gravata? Por que o relógio gira no “sentido horário”? Se vivemos num sistema decimal, porque o dia tem 24 horas de 60 minutos cada?

O fato é que, muitas da regras que obedecemos hoje em dia não tem nenhum fundamento. Mesmo assim, se desejemos agir diferente, somos considerados “loucos” ou “imaturos”. Enquanto isso, a sociedade vai criando alguns sistemas que, no decorrer do tempo, perdem a razão de ser, mas continuam impondo suas regras. Uma interessante história japonesa ilustra o que quero dizer:

Um grande mestre zen budista, responsável pelo mosteiro de Mayu Kagi, tinha um gato, que era sua verdadeira paixão na vida. Assim, durante as aulas de meditação, mantinha o gato ao seu lado – para desfrutar o mais possível de sua companhia.
Certa manhã, o mestre – que já estava bastante velho – apareceu morto. O discípulo mais graduado ocupou seu lugar.
– O que vamos fazer com o gato? – perguntaram os outros monges.

Numa homenagem à lembrança de seu antigo instrutor, o novo mestre decidiu permitir que o gato continuasse frequentando as aulas de zen-budismo. Alguns discípulos de mosteiros vizinhos, que viajavam muito pela região, descobriram que, num dos mais afamados templos do local, um gato participava das meditações. A história começou a correr.

Muitos anos se passaram. O gato morreu, mas os alunos do mosteiro estavam tão acostumados com a sua presença, que arranjaram outro gato. Enquanto isso, os outros templos começaram a introduzir gatos em suas meditações: acreditavam que o gato era o verdadeiro responsavel pela fama e a qualidade do ensino de Mayu Kagi, e esqueciam-se que o antigo mestre era um excelente instrutor

Uma geração se passou, e começaram a surgir tratados técnicos sobre a importancia do gato na meditação zen. Um professor universitário desenvolveu uma tese – aceita pela comunidade acadêmica – que o felino tinha capacidade de aumentar a concentração humana, e eliminar as energias negativas. E assim, durante um século, o gato foi considerado como parte essencial no estudo do zen-budismo naquela região.

Até que apareceu um mestre que tinha alergia a pelos de animais domésticos, e resolveu tirar o gato de suas práticas diárias com os alunos. Houve uma grande reação negativa – mas o mestre insistiu. Como era um excelente instrutor, os alunos continuavam com o mesmo rendimento escolar, apesar da ausência do gato.

Pouco a pouco, os mosteiros – sempre em busca de ideias novas, e já cansados de ter que alimentar tantos gatos – foram eliminando os animais das aulas. Em vinte anos, começaram a surgir novas teses revolucionárias – com títulos convincentes como “A importância da meditação sem o gato”, ou “Equilibrando o universo zen apenas pelo poder da mente, sem a ajuda de animais”.

Mais um século se passou, e o gato saiu por completo do ritual de meditação zen naquela região. Mas foram precisos duzentos anos para que tudo voltasse ao normal – já que ninguém se perguntou, durante todo este tempo, por que o gato estava ali.

E assim começou meu fim de semana. Enquanto isso, de manhã cedo, minha gata medita assim:

Ilustração de Kathy Crabbe (CC BY-NC-ND 2.0)

Ilustração de Kathy Crabbe (CC BY-NC-ND 2.0)

Dia 8: O que desejar bem a alguém significa?

Tradução da newsletter do oitavo dia da campanha 100 Dias de Amor-Bondade, da Wildmind:

Um ponto de discórdia entre algumas pessoas em relação à prática de amor-bondade é o significado de “desejar bem alguém”. O que significa “bem”?

Este assunto surgiu um dia desses, com uma pessoa que tem problemas de saúde que simplesmente não vão desaparecer. Ela nunca estará completamente saudável, de modo que nunca alcançará um bem-estar. Para que desejar algo que a pessoa não pode ter? Não seria mais uma fonte de sofrimento? E se você tiver um amigo que está morrendo de câncer, o que significa desejar que ele esteja bem? Ele não vai melhorar.

O Buda tem uma conversa onde comenta um de seus próprios ensinamentos. É um diálogo bastante fascinante, porque quando a gente lê o verso original, a gente acha que sabe o que o Buda quis dizer, embora quase certamente a gente esteja errado:

Saúde é o ganho mais precioso
e contentamento a maior riqueza.
Uma pessoa de confiança é o melhor parente,
Nibbāna* a maior felicidade

Está no Darmapada, versículo 204. É difícil imaginar algo mais simples do que a primeira linha, equivalente ao velho ditado “se você tiver saúde, tem tudo”. Quando um homem saudável, que se diria, portanto, feliz, menciona este verso para Buda, ele responde que não estava falando sobre a saúde física. O corpo é “uma calamidade e uma aflição”, mesmo quando saudável, aponta. Ele parece querer dizer que um corpo saudável é um corpo não-saudável esperando para acontecer.

A “saúde” a que Buda se refere é a liberdade do sofrimento mental, que em última análise é a iluminação (o nirvana da última linha). Até mesmo um ser iluminado fica fisicamente doente e passa por dor física e desconforto, mas não tem o sofrimento secundário que acompanha os sentimentos de aversão à doença e de desejo que a experiência fosse diferente do que é.

Pense sobre a auto-piedade que comumente experimentamos quando estamos doentes. Essa resistência à doença, essa atitude de “coitadinho de mim” e esse sentimento de termos sido atingidos pelo universo são muito mais dolorosos do que a doença em si. Tudo isso é deixado de lado quando nos iluminamos, e não mais temos aversão ou desejo. Não precisamos ser iluminados para experimentar esta liberdade, embora seja preciso ter esclarecido para experimentá-la permanentemente. Podemos experimentar a liberdade do sofrimento secundário agora, ao deixar de lado as histórias que contamos para nós mesmos sobre a nossa experiência e ficamos apenas com a experiência em si.

Quando dizemos “que eu esteja bem” ou “que você esteja bem”, estamos principalmente desejando a nós mesmos ou aos outros a liberdade do sofrimento secundário, ou seja, a aversão ou o desejo em relação à doença. Estamos desejando que o desconforto da doença seja experienciado conscientemente. Estamos desejando que a gente, ou a outra pessoa, esteja em paz com o que está acontecendo com o corpo.

Jon Kabat-Zinn colocou isso muito bem:

O tratamento não significa a cura, embora as duas palavras sejam muitas vezes usadas ​​como sinônimos. Embora nem sempre seja possível nos curar ou encontrar alguém que consiga nos curar, é sempre possível nos tratar. O tratamento implica a possibilidade de nos relacionarmos de forma diferente com a doença, a invalidez e a morte, ao aprendermos a ver com os olhos da totalidade. O tratamento é a reconciliação com as coisas como elas são.

Claro que é ótimo se você ou a outra pessoa puderem melhorar. Você pode desejar bem a alguém no sentido de que você espera que a pessoa recupere a saúde em breve. Mas, a longo prazo, todos nós vamos ficar doentes, e a paz e a felicidade verdadeiras virão da aceitação paciente de nossa doença. A gente aprende a ver com os olhos da totalidade e a aceitar, sem resistência ou aversão, até mesmo as experiências mais dolorosas.

Com metta (bondade),
Bodhipaksa

[Notas da tradução:
*nirvana, iluminação;
O Dhammapada, Darmapada ou Caminho do Dharma é um texto budista tradicionalmente considerado como tendo sido composto pelo próprio Buda. A tradução em português deste verso é de Bhikkhu Dhammiko, e foi publicada em “Dhammapada – O Caminho da Sabedoria do Buddha
Alguém tem alguma sugestão melhor para traduzir healing e cure na citação de Jon Kabat-Zinn? Ele começa com “Healing does not mean curing“]

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Dia 7: Sorria a caminho do amor-bondade

Chegamos à primeira semana! Eis a newsletter do sétimo dia da campanha 100 Dias de Amor-Bondade, da Wildmind:

Se você olhar para uma estátua ou pintura do Buda, notará que ele é quase sempre retratado com um sorriso no rosto. Ele não tem um riso largo – o Buda é acima de tudo uma pessoa consciente e composta em relação a suas emoções – e sim um sorriso gentil e compassivo.

E adotar um sorriso, mesmo quando não nos sentimos com vontade de sorrir, é algo que pode nos ajudar a ser mais gentis, pois um sorriso é uma forma de comunicação, tanto interior quanto exterior.

Acho que hoje em dia quase todo mundo já sabe que sorrir afeta a nossa fisiologia e a forma como nos sentimos. Um estudo, por exemplo, levou pessoas a segurar chopsticks com os dentes de uma forma a criar um sorriso artificial. Os participantes não chegaram a perceber que estavam sorrindo, mas ainda assim tiveram a fisiologia alterada. Eles conseguiram recuperar-se mais rapidamente de situações estressantes do que os participantes não-sorridentes, e apresentaram batimentos cardíacos mais baixos. Estavam, literalmente, praticamente capazes de “sorrir e aguentar”.

Estudos semelhantes mostram que pessoas que estão sorrindo, mesmo desta forma artificial e sem saber, acham cartuns cômicos mais engraçados, experimentam mais prazer ao olharem para rostos (mesmo rostos infelizes), e apresentam um aumento de humor. Os efeitos sobre o humor são mais pronunciados em pessoas constrangidas – o que geralmente equivale, na minha experiência, a auto-criticismo. Sorrir altera a taxa e a profundidade da respiração e a frequência dos batimentos cardíacos, deixando ambos mais alinhados com a forma como o corpo se comporta quando estamos felizes. Também muda a temperatura do sangue que flui para o cérebro, o que pode ser uma das maneiras como o sorriso afeta nossas emoções.

Estes efeitos são modestos. Se estivermos passando por uma depressão profunda, ou de luto pela perda de um ente querido, não vamos “sair dessa” por causa da adoção de um sorriso. Mas em circunstâncias mais normais, podemos dar um empurrãozinho em nossas emoções na direção da felicidade, confiança e bondade simplesmente sorrindo.

Uma coisa que observei sobre sorrir é que isso me ajuda a transmitir uma sensação de bondade para com qualquer parte da minha experiência que eu esteja observando. Quando eu sorrio ao prestar atenção a uma parte do meu corpo que está doendo, ou a um sentimento doloroso, é como se estivesse enviando um sinal dizendo: “Está tudo bem. Tudo está OK. Há dor, claro, mas podemos lidar com ela”. Sorrir nos permite  comunicar tranquilidade para nós mesmos, o que cria uma dinâmica muito diferente de quando estamos passando por dor física ou emocional, estamos chateados ou desejamos escapar do desconforto. Essa rejeição da nossa experiência simplesmente provoca mais dor. Sorrir transmite confiança, e a confiança está, como eu indiquei há alguns dias, relacionada à nossa capacidade de ter boa vontade para com os outros. Quando nos falta confiança, tendemos a supor que não faremos a diferença ou que teremos só um efeito negativo, sobre os outros. É preciso confiança para pensar que a nossa bondade importa – que nós importamos.

Quando eu sorrio, não só eu sinto que meu coração abranda, mas tudo no mundo ao meu redor parece abrandar também, incluindo outras pessoas. Sorrir transmite benevolência. Pesquisas mostram que, quando sorrimos, as pessoas nos julgam com menos severidade; sorrir ajuda os outros a se sentir mais benevolentes. E isso certamente nos ajuda a nos sentir mais benevolentes também. O sorriso de Buda mostra não apenas felicidade, mas amor e compaixão por todos os seres. Quando sorrimos ao desejar que outras pessoas estejam bem, sentimos mais bondade para com elas.

Uma coisa linda sobre sorrir durante a meditação é que isso pode desencadear um ciclo de feedback onde sorrir nos deixa mais felizes e estar mais felizes nos faz sorrir. Como Thich Nhat Hanh diz: “Às vezes, a sua alegria é a fonte de seu sorriso, mas às vezes o seu sorriso pode ser a fonte de sua alegria”.

Então, sorrir é uma coisa fácil de fazer, eficaz e grátis. O que em si é motivo para sorrir.

Com metta (bondade),
Bodhipaksa

Acompanhe todas as traduções dessa série aqui.

Foto de Yacine Baroudi (CC BY 2.0)

Foto de Yacine Baroudi (CC BY 2.0)

Citação

Mundano

“Qualquer atividade mundana pode se tornar meditativa. Cavar um buraco no jardim, plantar novas rosas no jardim – é possível fazer isso com tanto amor e compaixão, você pode fazê-los com as mãos de um Buda.”

~ Osho, Hyakujo: The Everest Of Zen, With Basho’s Haikus, # 5. Fonte.