Dia 3: Lidando com a ausência de amor-bondade

Tradução da newsletter do terceiro dia da campanha 100 Dias de Amor-Bondade:

Algumas pessoas se deparam com sérias dificuldades na meditação de amor-bondade, especialmente no que tange o cultivo de amor-bondade para consigo mesmas. Às vezes, sentem uma sensação de fracasso e desânimo em torno da prática, a evitando. Acredito que que esta sensação de fracasso parta de uma incompreensão do que seja metta.

Muitas das pessoas que encontram dificuldades na prática da meditação de amor-bondade acreditam que metta seja uma emoção. Elas acham que trata-se de uma emoção que ainda não experimentaram, vendo metta como algo grandioso e imponente, profundamente comovente, uma coisa poderosa e até mesmo avassaladora. E, no passado, talvez tenham sentado em meditação, tentando fazer com que esta grande emoção acontecesse, e não vendo nenhuma grande emoção chegar semana após semana, mês após mês, ano após ano, chegaram à conclusão que experimentar metta era algo que não estava ao alcance delas.

Mas metta não é uma emoção. É uma volição.

O que é volição então? A volição é um desejo ou vontade (do verbo volere que significa “querer” em latim). Especificamente, metta é o desejo de que todos os seres (incluindo nós mesmos) estejam bem, felizes e em paz. Agora, esse desejo pode vir acompanhado de certos sentimentos, como um calor no coração, ou talvez não. Muitas vezes, não é.

Sempre que você agir de uma forma que valoriza o bem-estar de outra pessoa e leva em conta a felicidade dela, você está agindo com metta. Assim, para dar um exemplo muito comum, você segurar uma porta aberta para alguém atrás de você passar. Você não deixaria a porta bater, porque seria uma experiência desagradável para a pessoa e  causaria sofrimento a ela. E isso você não quer. Mas geralmente não há nenhum grande afloramento de emoção ao segurar a porta para alguém passar. Talvez haja um pequeno brilho de felicidade, talvez não. O importante é que você tratou outra pessoa bem. O fato de você sentir algo é secundário, e não muito importante.

Se você acha que metta é uma emoção, então a prática da meditação de amor-bondade pode ser especialmente difícil quando se trata de auto-metta, pois você procura um sentimento de amor por si próprio e não o encontra. O que significa (você presume) que você não ama a si mesmo. O que significa que você não é digno de amor. O que significa que você é uma pessoa terrível. O que significa que você não merece amor. E portanto você não se ama (ou não consegue se amar). Nesse ponto, você está sentindo alguma coisa, mas é algo muito doloroso!

Porém, mais uma vez, a auto-metta é tão tecida em nosso ser que simplesmente não a vemos. Certamente, pode ser que sejamos o oposto de bondoso em relação a nós mesmos, às vezes, por exemplo, podemos falar conosco de maneira áspera. Mas nos alimentamos e nos vestimos, nos tratamos, e, geralmente, nos impedimos de sermos prejudicados. Cuidamos de nós mesmos. Nossa auto-metta está presente praticamente o tempo todo.

Metta é uma parte muito comum da vida. Esta qualidade de desejar que todos os seres (incluindo nós mesmos) estejam bem, felizes e em paz é parte do tecido de nosso ser. Metta não é uma nova coisa estranha que você nunca experimentou. As sementes de metta estão sempre lá para cultivarmos. Ao cultivar plantas, você não começar com nada. Você começa com sementes. E as sementes de metta já existem dentro de nós, na forma da bondade comum que demonstramos no dia a dia.

Portanto, não há necessidade de evitar a prática de amor-bondade, caso você a considere um desafio. O que você precisa fazer é mudar o seu entendimento do que metta é. Para tanto, veja a seguir algumas coisas que eu sugiro:

  • Eu o encorajo a aceitar, antes de tudo, o fato de que metta não é uma emoção, mas um desejo: um desejo de felicidade e bem-estar.
  • Eu o encorajo a aceitar que você tem de fato esse desejo de felicidade e bem-estar, e, portanto, você tem auto-metta.
  • Eu o encorajo a perceber as pequenas coisas que você faz que representam atos de cuidado pessoal, algo tão básico quanto estar em segurança ao atravessar a rua, ou algo além, como fazer uma pausa quando estiver cansado. Aprecie essas coisas e as reconheça como auto-metta.
  • E, finalmente, perceba as maneiras como você se importa com os outros, mesmo em pequenas coisas, como sair da frente para que eles possam passar, ou segurar uma porta aberta.

Mas também cultive metta e, principalmente, auto-metta, em sua prática de meditação diária e até mesmo durante o dia, repetindo qualquer uma das frases de amor-bondade que sejam mais significativas para você. Frases como “Que eu esteja bem; que eu seja feliz, que eu possa estar à vontade”. Esteja aberto a qualquer resposta em forma de sentimentos que venha, mas está tudo bem se você não sentir algo. Basta fazer a prática para reforçar o seu desejo de estar bem e feliz.

Com metta (bondade),
Bodhipaksa

Acompanhe todas as traduções dessa série aqui.

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